| Login | Crie o seu Jornal Online FREE!

Conexão Ciência
Desde: 15/04/2004      Publicadas: 835      Atualização: 20/11/2011

Capa |  Agenda  |  Editorial  |  Entrevista  |  Estante  |  Expediente  |  Notas  |  Notícias  |  Reportagem  |  Reportagem Especial  |  Reportagem Especial


 Entrevista

  05/11/2007
  0 comentário(s)


"Um olhar sobre o mundo"

A educação ambiental, observada e estudada do ponto de vista de um pesquisador que já realizou pesquisas em diversos países do mundo


Pauta e Reportagem: Larissa Ayumi Sato

"O que nós, enquanto cidadãos, podemos interferir neste estilo de vida que está nos levando à destruição, não só da própria espécie, mas de todas as formas de vida". Esta é a definição de educação ambiental pensada pelo professor Marcos Antonio dos Santos Reigota, pesquisador do assunto, que recentemente esteve na Universidade Estadual de Londrina para participar de uma banca de qualificação de mestrado. Natural de Promissão " SP, o professor doutor é biólogo graduado pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras "Farias Brito", de Guarulhos, mestre em Filosofia da Educação na Pontifícia Universidade Católica (PUC) em São Paulo, doutorado em Educação pela Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, e pós-doutorado na Universidade de Genebra, na Suíça.

Reigota realizou estágios de pesquisa na London School of Economics and Political Science;no Institut for Social Research of Frankfurt com bolsa do DAAD/CAPES e com bolsa da Fundação Japão, na Josai International University em Chiba e na Sophia University de Tóquio. É professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Sorocaba e professor-colaborador do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Além disso, o professor publicou diversos livros - entre eles, "O que é educação ambiental"(Brasiliense),"Meio ambiente e representação social" (Cortez), e "Tendências da educação ambiental brasileira" (Edunisc) . Em entrevista ao Conexão Ciência, Reigota conta sobre a sua trajetória e suas pesquisas sobre a educação ambiental pelo mundo afora.

Conexão Ciência: Por que um biólogo escolhe a área de educação? No seu caso, como foi esta escolha?
Marcos Antonio dos Santos Reigota:
Porque quando eu estava estudando Biologia, eu também participava muito do movimento estudantil e do movimento ecológico, em São Paulo que nesta época também estava iniciando. E se falava muito de educação, se falava muito de Paulo Freire " se falava mais do que se lia. Isso chamou muito a minha atenção. Até que " eu estava no 3º ano de faculdade " eu assumi umas aulas como professor substituto e me apaixonei pela educação. Falei: é isso que eu vou fazer; é este o meu espaço. Mas eu queria ter uma formação em educação. Eu não estava me formando para isso. Então, eu concluí a licenciatura em Biologia e já ingressei no Mestrado em Educação. Fui aluno do Paulo Freire, do Octavio Ianni, de professores bastante conhecidos na época, e minha trajetória começou assim, não só como professor, mas como pesquisador em educação ambiental.

ConCiência: E por que você escolheu exatamente a educação ambiental?
Marcos Reigota:
Por fazer essa relação com a biologia, estudo da vida, não só do mecanismo biológico da vida, mas do sentido da vida. E eu acho que isso aproxima da educação. E educação ambiental, que faz então esse elo entre o estudo da vida e o sentido da vida. Para mim, isso foi fundamental (essa compreensão.)

ConCiência: E qual é a sua definição para educação ambiental, depois deste longo período de estudos que ainda continua?
Marcos Reigota:
É que vida nós levamos. O que nós, enquanto cidadãos, podemos interferir neste estilo de vida que está nos levando à destruição, não só da própria espécie, mas de todas as formas de vida. É a reflexão que eu tenho feito todo este tempo. E considero que nós, enquanto espécie biológica, humana, política, nós temos uma responsabilidade em interferir neste processo.

ConCiência: E você acha que esta responsabilidade está sendo incorporada pelos brasileiros?
Marcos Reigota:
Se eu falar que sim, talvez eu esteja exagerando. Se eu falar que não, também não estarei dando a devida importância a tantas pessoas que estão nesse processo. E talvez a quantidade não seja o mais importante. O importante é a qualidade das intervenções dessas pessoas. Nesse sentindo, eu diria que sim. Eu acho que tem muita gente trabalhando muito, produzindo, refletindo, debatendo, e eu acho que o Brasil tem sim uma tradição nisso. Pouco conhecida, mas muito importante.

ConCiência: Para você, onde começa a educação ambiental?
Marcos Reigota:
Eu não sei se é uma questão institucional - assim: se começa na escola, se começa em casa, se começa com a família. Eu acho que começa com um olhar sobre o mundo, sobre o outro. E, nesse momento histórico que nós temos visto, é um olhar para si. O que importa sou eu, eu tenho que chegar primeiro, eu tenho que chegar à frente. A competição - as pessoas não olham as outras que estão ao redor. Acho que a partir do momento em que você desviar o olhar para o outro " seja o ser humano, ou para a vida de forma geral " é quando está começando a educação ambiental. Isso pode acontecer em qualquer momento, em qualquer lugar.

ConCiência: E você acha que o Brasil ainda tem jeito neste caminho para a educação ambiental?
Marcos Reigota:
Neste momento, eu ando muito pessimista com a política ambiental brasileira, com os encaminhamentos oficiais do Ministério da Educação, do Ministério do Meio Ambiente sobre a educação ambiental - Eu tenho sido um crítico bastante severo em relação a isso. Eu estou bastante pessimista desse atrelamento da educação ambiental a uma política que é, no meu ponto de vista, muito nefasta. Mas, ao mesmo tempo, tem todos esses movimentos que vão no sentido contrário, de construção efetivamente de uma educação ambiental que seja pertinente, que não acate essa política ambiental como se ela fosse a mais correta, que questiona. E questiona não só do ponto de vista político, mas também do ponto de vista histórico, acadêmico, com pesquisas, com análises bastante sólidas.

ConCiência: E você acha que a educação ambiental deveria ser ensinada nas escolas?
Marcos Reigota:
Não, porque não é uma disciplina. Isso é um equívoco muito grande: achar que porque você aprendeu o que é ecossistema, o que é nicho ecológico, habitat, você vai ter uma consciência ambiental. É importante que a educação ambiental adentre as escolas, mas não como disciplina. Sou radicalmente contrário a isso. Eu acho que a educação ambiental é "indisciplinada" na sua essência. Ela desestrutura a escola montada, pautada em disciplinas. Agora há um movimento dentro das escolas levado pelos professores, pelos alunos, que acham que este tema é importante, que deve ser discutido, mas ele pode se discutido na aula de educação física, na aula de história, na aula de artes, enfim. Não como uma disciplina única, específica.

ConCiência: Você é professor da Universidade de Sorocaba. O que você está pesquisando no momento?
Marcos Reigota:
Eu estou em uma linha de pesquisa que é sobre cotidiano escolar " o que acontece no cotidiano da escola relacionado a temas polêmicos, como é o caso do meio ambiente. Outros colegas estão trabalhando sobre violência, sexualidade, e tudo mais. E a pesquisa que eu estou realizando no momento é sobre o conceito de natureza e a sua importância para a educação. Hoje, por exemplo, quando você fala de transgênico " que a natureza é modificada, reelaborada, produzida. É natureza? Podemos chamar de natureza? Essa é uma questão que eu estou estudando. E, ao mesmo tempo, a biodiversidade, que são as espécies, e que têm a definição de natureza mais evidente, aquela é que mais de senso comum. Então, como que estes dois conceitos originados da noção de natureza, a biodiversidade e os transgênicos, como eles estão sendo trabalhados na educação.

ConCiência: Você já passou por Alemanha, por Japão, Bélgica, Suíça, Grã-Bretanha. Desenvolveu vários projetos em vários países. O que você viu dos outros países nessa área de educação ambiental?
Marcos Reigota:
Eu fui estudar na Bélgica porque, na época, nas universidades brasileiras " pelo menos na área de educação " eu não tinha aqui como desenvolver a minha pesquisa. Então, eu ganhei uma bolsa e fui para a Bélgica. Estamos falando em 1985. E, na verdade, sobre educação ambiental, eu não encontrei nada que fosse diferente do que tinha no Brasil, porque também é um tema novo nesses países. O que eu encontrei lá foi a possibilidade de uma fundamentação teórica. O tempo para a fundamentação teórica. Então, isso foi muito importante. Mas principalmente depois de 92, da conferência do Rio de Janeiro, a educação ambiental explodiu no mundo. Então você tem diferentes concepções, diferentes formas de se entender a educação ambiental. E nesse sentido, a educação ambiental, que está pautada em um pensamento pedagógico, político, de participação, de intervenção, muito influenciado pelo pensamento de Paulo Freire, faz uma diferença significativa no debate internacional, nas propostas internacionais. Acho que, da minha experiência internacional, o que eu posso dizer, é da importância que a educação ambiental brasileira tem conquistado internacionalmente.

ConCiência: Como foi a sua experiência no Japão, que é um país totalmente diferente, principalmente em termos culturais?
Marcos Reigota:
Eu estive no Japão duas vezes, com bolsa da Fundação Japão, em 2000 e 2005. Em 2000, eu fiz uma pesquisa sobre a memória da bomba atômica, que é um marco no pensamento ecológico " a destruição da vida pela bomba atômica - e como é que este tema estava presente nas universidades, na educação escolar no Japão. Isso foi muito interessante. Só que o que eu observei é que o Japão desenvolveu uma educação para a paz a partir da bomba atômica, e não uma educação ambiental. Então, essa educação para a paz está muito desenvolvida. Mas o que pesquisei, conversando com os colegas japoneses, foi a possibilidade dessa educação para a paz se tornar uma educação ambiental e a educação ambiental se tornar uma educação para a paz, um diálogo. Acho que isso pode acontecer nos próximos anos. E da segunda vez que eu fui, em 2005, já foi dentro deste projeto de pesquisa sobre a noção de natureza. Eu estive analisando, na Exposição Universal, que aconteceu no Japão em 2005, em Aichi, que tinha como tema "A Natureza no Século XXI", como que esta natureza no século XXI estava representada nesta exposição. E ainda estou escrevendo sobre isso, então não tem nada pronto. Mas o livro sobre o lançamento da bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki deve sair no próximo ano, se tudo der certo.

ConCiência: E aqui no Brasil? Quais as pesquisas que você esteve desenvolvendo por aqui? Teve uma no Amapá, certo?
Marcos Reigota:
É, o Amapá deve sair no ano que vem o livro. Eu trabalhei um tempo sobre educação ambiental no contexto da Amazônia. Essa foi uma pesquisa bastante inovadora na perspectiva metodológica, e na sua perspectiva teórica. Tem uma pesquisa que fiz sobre o estado da arte da educação ambiental no Brasil, que é uma pesquisa inicialmente bastante discreta, mas que foi muito reveladora, de como que a educação ambiental está sendo estudada nas universidades. Eu consegui identificar muitas teses de doutorado e dissertações de mestrado. E o mais curioso disso é que a educação ambiental, enquanto um tema que está sendo pesquisado na universidade brasileira, está presente em praticamente todos os programas de pós-graduação. Então você vai ter teses e dissertações defendidas, por exemplo, numa escola de comunicação e arte, como engenharia de produção, saúde pública, ecologia, geografia, história, educação, evidentemente. Isso deu uma cartografia da produção. E isso foi muito revelador. É uma pesquisa que eu publiquei três artigos sobre ela, e um colega em Santa Catarina está ampliando esta pesquisa na tese de doutorado dele. São essas as pesquisas mais recentes que fiz.

ConCiência: E já tem planos para as próximas?
Marcos Reigota:
Eu espero concluir essa minha pesquisa sobre os conceitos de natureza. Eu tenho solicitado bolsa de produtividade cientifica para o CNPq, que tem recusado " três vezes recusou a minha solicitação. Mas eu estou solicitando para agências internacionais. Eu quero me dedicar a essa pesquisa com muito tempo, porque um dos problemas de se fazer pesquisa hoje no Brasil é que as pessoas estão chegando a conclusões muito rapidamente, pela pressão do tempo. E eu quero ter tempo para fazer a minha pesquisa, e quando apresentar um trabalho, um texto, ele tenha fundamentação, ele tenha essa maturação da reflexão. Então acho que pelo menos até 2010 eu estarei mergulhado nesta pesquisa.

Crédito da foto: http://www.fjsp.org.br/fellowship/pa_18.htm

Ano 4 - Edição 26 - 04/nov/07



  Mais notícias da seção Meio Ambiente no caderno Entrevista
18/05/2008 - Meio Ambiente - Departamento de Química gerencia a produção "perigosa" dos laboratórios da UEL
Professora de Química explica a importância de um descarte adequado de produtos químicos tanto em laboratórios como dentro de casa...
26/04/2008 - Meio Ambiente - Educar para preservar
Livro critica mística em torno do biodiesel e discute os desafios da educação ambiental...



Capa |  Agenda  |  Editorial  |  Entrevista  |  Estante  |  Expediente  |  Notas  |  Notícias  |  Reportagem  |  Reportagem Especial  |  Reportagem Especial
Busca em

  
835 Notícias


Notícias
 

Projetos

 

Projeto do Departamento de Design reúne moda, sustentabilidade e inclusão social


Notas
 

Divulgação Científica

 

Instituto do Câncer lança programa de prevenção no Twitter


Agenda
 

Agenda

 

Agenda


Editorial
 

Editorial

 

Casa Própria, Pedagogia e Anestésicos


Expediente
 

Expediente

 

Quem trabalha no Conexão Ciência