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Conexão Ciência
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 Entrevista

  13/08/2007
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Aids: discussão aberta

Antropóloga analisa o imaginário da AIDS a partir do risco da doença entre os jovens

Aids: discussão aberta
Reportagem: Márcia Malcher
Pauta e Edição: Larissa Ayumi Sato


A Síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS), como toda doença na história da humanidade, possui uma dimensão social ampla. O livro Risco e prazer - os jovens e o imaginário da AIDS tenta desvendar a percepção de risco entre os jovens e como eles lidam com as representações a respeito da doença que desde seu surgimento incita valores simbólicos como o medo, preconceito, pânico. Nesse contexto, a autora Leila Sollberger Jeolás (professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, com experiência na área de Antropologia da Saúde) comenta sobre esse trabalho, resultado de aproximadamente sete anos de pesquisa.

Conexão Ciência: Como surgiu a idéia do livro?

Leila Jeolás:
Desde 1989, trabalhei na Associação Londrinense Interdisciplinar de Aids (Alia), percorrendo os bairros de Londrina, escolas públicas e desenvolvendo um trabalho de prevenção e defesa das pessoas portadoras do vírus (objetivo inicial da entidade que foi se ampliando). Assim, a idéia de estudar a AIDS no doutorado surgiu com uma prática nessa Organização Não-Governamental, que, além da posição política de defesa dos direitos, também propunha a prevenção. Iniciei o doutorado em 1995, queria pensar na razão porque havia tanta resistência, não só do jovem, mas da população em geral, em incorporar a prevenção da AIDS. Integrei uma equipe do Centro de Referência e Atendimento ao Adolescente de Londrina (CRAAL), ao mesmo tempo em que trabalhei com jovens de 4 escolas públicas de Londrina em bairros periféricos. No geral, eram jovens das chamadas classes populares, provenientes de vários programas sociais e unidades básicas de saúde.

Conciência: Qual o método que você utilizou para obter esses dados?

Leila Jeolás:
Analisei material obtido através de abordagem qualitativa. Nas escolas, desenvolvia o trabalho de prevenção: assistir a vídeos e realizar debates. Depois disso, eu pedia que os alunos pusessem numa caixa o que representava a questão do risco da AIDS pra eles, visando saber a percepção deles sobre o assunto. Obtive mais de 1000 textos para serem analisados. No serviço público de saúde realizei oficinas de prevenção e grupos focais (técnica de pesquisa qualitativa que consiste em grupos de discussão temática) fazendo anotações sobre as discussões realizadas.

Conciência: Existe comportamento de risco? O que encaixa o jovem nessa posição?

Leila Jeolás:
No decorrer dessas três décadas de epidemia, tanto o conceito de grupo de risco como o de comportamento de risco vêm sendo criticados. O primeiro, devido as suas implicações: o termo coloca um rótulo, estereotipa. Por isso, ele foi refutado e surgiu o conceito de comportamento de risco, que por sua vez, também é reducionista: faz uma filiação muito individual, como se o indivíduo desenvolvesse seu comportamento de maneira abstrata em relação à classe social, a cultura ou a diferença de gêneros. Então, passamos a trabalhar mais com a idéia da vulnerabilidade: a razão pela qual os jovens estão vulneráveis à AIDS, pensando os jovens no plural, nas suas características de classe social, de segmento cultural, de diferenças de gênero entre os jovens brasileiros. Por exemplo, todos sabemos que a vulnerabilidade à AIDS nos países africanos é muito maior do que nos EUA ou nos países europeus, que investiram em programas de prevenção há muito mais tempo, bem como na defesa dos direitos humanos. A mesma análise se aplica aos jovens, porque a vulnerabilidade de jovens que moram na periferia, estudam em escolas públicas e não tem acesso à jornais, informações, médico, programas de saúde, é maior do que a vulnerabilidade de um jovem da classe média. Mas essa conclusão também não é uma constante, porque o jovem da classe média também se diferencia. Então, trabalhei com a idéia de que esses jovens das escolas públicas, do serviço público de saúde estão vulneráveis à AIDS. Para mim, a falta de acesso a programas contínuos de educação e de saúde nas escolas e nos serviços de saúde é o maior fator de vulnerabilidade para os jovens.

Conciência: O que caracteriza o comportamento dos meninos e das meninas quanto à prevenção da Aids?

Leila Jeolás: A dificuldade das meninas de conseguir negociar com autonomia a prevenção foi um fator constante que percebemos nas escolas, já que elas se tornam reféns da forma pela qual a sexualidade é pensada tanto na sociedade em geral, como pelos próprios jovens, mais especificamente. Para eles, a menina que tem camisinha na bolsa, e logo no primeiro encontro fala no assunto, é ´fácil´, é "galinha", é aquela que sai com todo mundo. Isso acaba vulnerabilizando tanto um quanto o outro. Apesar de ter menor poder de negociação e a menina estar mais vulnerável, ele também corre o risco porque pensa que não vai ser infectado pela namorada ou pela menina que julga "certinha". No Brasil, é muito forte essa questão das relações pessoais. A confiança no parceiro é citada por ambos os gêneros para justificar a falta de prevenção, mesmo que entre os meninos o que conta bastante é a impulsividade, a falta de controle na "hora h", a paixão e entre as meninas o que conta mais é o amor romântico.

Conciência: Quais as dúvidas mais freqüentes dos jovens em relação à prevenção e o que mais chamou sua atenção?

Leila Jeolás: Eu diria que as informações básicas de contaminação da AIDS já foram aprendidas pelos jovens. Todavia, como eles mesmos dizem, na "hora h", as dúvidas começam a surgir pela própria dificuldade em lidar com a sexualidade. Daí surgem perguntas como:"se eu transar com a menina e não gozar dentro, eu posso pegar AIDS?". Esses detalhes da contracepção, da transmissão do vírus do HIV, esbarram na dificuldade dos jovens de falar franca e abertamente sobre a sexualidade. Por isso, ainda permanece o medo meio abstrato de contrair AIDS ao ajudar alguém acidentado ou durante uma transfusão de sangue. E apesar de a probabilidade de infecção pela relação sexual ser muito maior do que por uma transfusão ou contato com o sangue, o medo em relação ao sangue parece ser maior que o medo quanto à relação sexual.

Conciência: Quais são as sugestões e conclusões que surgiram desse trabalho?

Leila Jeolás: O imaginário da AIDS está mudando muito: hoje, a idéia de grupo de risco foi diluída, há menos discriminação e estereótipo em relação ao portador do vírus. E como estamos em meio a um processo de longa duração, chamei as conclusões de inconclusões. A primeira delas, que chamou minha atenção foi o fato de que, apesar de o risco da AIDS estar mais próximo de todos (todos conhecem um portador do vírus que pode ser um familiar, um vizinho), eles ainda pensam a AIDS como sendo uma doença "do outro", utilizando fatores de negação como se apenas a pessoa "promíscua", a "galinha" o usuário de drogas corressem risco. Outra inconclusão é que qualquer prevenção aciona outros mecanismos, não apenas os racionais e cognitivos. No caso da AIDS, envolve complicados tabus da nossa cultura a respeito do sexo e da morte. Por isso, é errôneo utilizar o argumento de que apenas a informação sobre camisinha resolverá a problemática, já que fatores da inconsciência e do prazer também são atuantes. É possível reduzir a vulnerabilidade, trabalhando antes da meta final, que é todo mundo usar camisinha, com etapas intermediárias: desconstrução das metáforas negativas, da dificuldade enorme de falar sobre sexualidade; a tentativa de construir relações baseadas na segurança e na possibilidade de negociação da camisinha implica em se pensar numa relação menos hierárquica entre os gêneros. Isso só pode ser feito de forma conjunta entre projetos, serviço público de saúde, instituições e investimento por parte da secretaria de educação, de saúde, de assistência social e outras.

Foto: Márcia Malcher

Ano 4 - Edição 15 - 12/ago/2007




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