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Conexão Ciência
Desde: 15/04/2004      Publicadas: 835      Atualização: 20/11/2011

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 Entrevista

  10/09/2007
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Atração pela internet

Quando é prejudicial e afeta a vida de crianças e adolescentes

Atração pela internet Pauta e Reportagem: Pauline Frank de Almeida
Edição: Larissa Ayumi Sato


O psiquiatra Daniel Spritzer, mestre pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, esteve em Londrina para proferir uma palestra sobre o uso excessivo da internet por crianças e adolescentes. Ele faz parte, com mais cinco psiquiatras e duas psicólogas, do Grupo de Estudos sobre Adições Tecnológicas (Geat), do Rio Grande do Sul.

O Geat tem como objetivo estudar o impacto da internet nos hábitos da população e publicar estudos sobre o assunto, que ainda são escassos na comunidade médica.

Conexão Ciência: O uso exagerado da internet pode ser considerado um vício?
Daniel Spritzer:
Nós ainda não temos dados muito concretos que mostram que isso seja comprovado, embora seja a opinião de muitas pessoas que atendem crianças, adolescentes e também adultos com esse tipo de problema. O que nós sabemos hoje, que a ciência já comprovou, é que pode ser um tipo de transtorno psiquiátrico, justamente porque traz um prejuízo muito significativo em diversas áreas da vida.

ConCiência: Qual a diferença de um vício como o álcool e o da internet?
Daniel Spritzer:
Hoje em dia, nós já falamos na questão de dependência comportamental, que funcionaria de maneira muito parecida com a dependência química, mas não tem uma substância envolvida, uma substância externa. Como por exemplo, o jogo patológico, a pessoa que tem problemas com o jogo de azar. Embora os jogos eletrônicos não tenham dinheiro envolvido, não se aposte neles, os mecanismos podem ser muito parecidos. Os jogos já estão trazendo tecnologias muito usadas nos caça níqueis que fazem as pessoas ficarem mais envolvidas.

ConCiência: Como o organismo reage à internet? Quando é um vício?
Daniel Spritzer:
Muito provavelmente, a pessoa não desenvolve um vício por internet. Ela desenvolve um uso excessivo em alguma atividade que a internet oferece e que a internet permita que ela faça. Por exemplo, quem gosta de jogos eletrônicos, usa a internet para jogar conectado em rede. Quem vê muita pornografia, vai continuar vendo muita pornografia, mas facilitada pela internet. Então é interessante ver o que a pessoa faz na internet, é a atividade que ela desenvolve que pode ser considerada um vício.

ConCiência: Cigarro e álcool liberam substância de prazer no organismo. Na internet isso também acontece?
Daniel Spritzer:
Tem um estudo muito interessante que mostrou que quando a pessoa está jogando vídeo game, ela libera no cérebro a mesma substância que outras drogas, que é a dopamina, numa região chamada núcleo acumbens. Isso é um dado extremamente importante porque o núcleo acumbens é a área do cérebro responsável pelo sistema de recompensa. O que tem na droga que faz quem toma querer continuar tomando? É o que determina o comportamento repetitivo. Isso já se demonstrou em um estudo. Claro que é preciso que outros estudos comprovem esse mesmo resultado, mas já é uma coisa que aproxima o uso excessivo de jogos eletrônicos com o vício por outras drogas. Quem atende bastante adolescente com problema muitas vezes identifica algumas características de alguns vícios, por exemplo, a pessoa pode acabar desenvolvendo tolerância, que é a necessidade de fazer algo cada vez mais para ter a mesma sensação que tinha antes. A pessoa pode desenvolver abstinência, por exemplo, ficar muito irritada ou até fisicamente inquieta por não poder fazer o que quer. É muito comum que ela tente parar ou diminuir o uso e não consiga. Isso também é uma coisa que acontece com as outras drogas. A pessoa segue jogando, apesar de todo mundo e ela mesma, ver que isso causa prejuízos. Nesse caso, o adolescente está indo mal na escola, não tem mais saído com os amigos, está aumentando de peso porque deixou de fazer atividades físicas, mas não consegue parar.

ConCiência: Qual o prejuízo para a educação da criança e do adolescente?
Daniel Spritzer:
Esse é um dos riscos mais importantes para o jovem porque ele fica muito interessado na internet e dá menos atenção para a questão da escola. Ele fica muito tempo no computador e deixa de fazer as lições de casa. Ou até por ficar acordado até muito tarde jogando, ele não consegue estar desperto o suficiente para prestar atenção na aula.

ConCiência: Por que a vontade de estar tanto tempo em frente ao computador? Qual a explicação para tanta atração?
Daniel Spritzer:
Por causa da tecnologia. Os jogos estão muito atraentes, muitos deles não tem fim. A tecnologia é um fator muito importante. Hoje os jogos estão com um áudio melhor, gráficos melhores. A questão de segurança também é interessante. Você deixa de sair de casa. Os pais se sentem mais seguros de saber que os filhos estão dentro de casa, então eles passam mais tempo em frente ao computador. E hoje em dia, a internet é uma importante ferramenta em trabalhos. É complicado limitar, é importante saber usar direito.

ConCiência: O que a internet traz de sadio?
Daniel Spritzer:
Tanto a internet quanto os jogos aumentam a velocidade do raciocínio. Trabalham questões até de coordenação motora. As crianças conseguem responder mais rápido a alguns estímulos e têm maior facilidade em mexer com novas tecnologias. Eles aprendem a mexer mais rápido, mas também ficam mais predispostos a usar excessivamente. A internet pode facilitar o contato entre as pessoas. Ela pode proporcionar um contato mais rápido, mais fácil. Você pode encontrar pessoas que não via há muito tempo. Ela tende a ser mais benéfica do que prejudicial.

ConCiência: Como perceber que o vício está se desenvolvendo?
Daniel Spritzer:
A grande maioria das pessoas usa a internet de modo benéfico. O uso excessivo corresponde a 5%. O uso prejudicial não está tão ligado à questão do tempo, mas a da qualidade que as pessoas estão tendo nas outras áreas da vida. Quando isso fica comprometido, aí sim, a gente pode falar que a criança tem algum tipo de vício.

ConCiência: Como os pais devem administrar a internet em suas casas?
Daniel Spritzer:
Quando a internet é usada de modo sadio, ela pode ser um "link" entre pais e filhos. O interessante é que os pais possam acompanhar o que o filho faz na internet porque é uma maneira de eles, até mesmo, conhecerem um pouco mais de seus filhos. Quando o uso está excessivo, deve ser imposto um limite, um número de horas. Estima-se que 1 a 2 horas por dia para quem tem problemas seja o suficiente. Ao mesmo tempo, negociar da criança jogar após fazer o dever de casa, depois de ter melhorado as notas. Em último caso, retirar o computador ou o modem.

ConCiência: É correto que os pais fiscalizem o que os filhos fazem na internet?
Daniel Spritzer:
Todo adolescente precisa de privacidade, não é legal fiscalizar e proibir se ele usa corretamente. Até porque uma das grandes tarefas da adolescência é que eles criem independência dos pais. Naturalmente, os pais perdem um pouco do controle sobre as atividades dos filhos. É importante ter uma abordagem sem crítica, sem preconceitos, procurar saber o que seu filho procura na internet.

ConCiência: Os jovens ficam muito tempo no universo virtual. Por que a fuga da realidade?
Daniel Spritzer:
A grande diferença é que o mundo virtual não apresenta tantas dificuldades quanto a vida real. Na adolescência tudo está mudando na vida: a mente, o corpo, há a pressão de precisar pertencer a um grupo. São as dificuldades que facilitam a fuga para uma segunda vida de coisas fáceis e lá você pode mudar seu jeito muito rápido e esse é o sonho de qualquer adolescente: ter o controle de tudo.

ConCiência: Qual é o tratamento adequado para o uso excessivo da internet? Existem clínicas especializadas para cuidar desse tipo de transtorno no Brasil?
Daniel Spritzer:
Não existem clínicas especializadas. Isso acaba sendo parte do dia-a-dia de quem cuida de crianças que fazem uso excessivo. O tratamento depende muito da história de vida da pessoa e o momento que ela está vivendo. Pode acontecer que quem joga demais ou usa muito a internet tenha mais chance do que as outras pessoas de desenvolver problemas psiquiátricos, depressão e fobia social, por exemplo. Mas nós não sabemos se predispõe a isso ou se a pessoa desenvolve essas doenças porque já era propensa naturalmente. Se nós identificamos alguma alteração, nós tratamos com psicoterapia e medicação, quando necessária. E é muito importante o trabalho com a família.

ConCiência: Qual o perfil de quem usa a internet em demasia?
Daniel Spritzer:
Adolescente do sexo masculino.

Ano 4 - Edição 18 - 09/set/2007



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