| Login | Crie o seu Jornal Online FREE!

Conexão Ciência
Desde: 15/04/2004      Publicadas: 835      Atualização: 20/11/2011

Capa |  Agenda  |  Editorial  |  Entrevista  |  Estante  |  Expediente  |  Notas  |  Notícias  |  Reportagem  |  Reportagem Especial  |  Reportagem Especial


 Entrevista

  18/05/2008
  0 comentário(s)


Departamento de Química gerencia a produção "perigosa" dos laboratórios da UEL

Professora de Química explica a importância de um descarte adequado de produtos químicos tanto em laboratórios como dentro de casa

Departamento de Química gerencia a produção
Pauta e Edição: Vitor Oshiro
Reportagem: Renata Santos


Resíduos orgânicos são gerados constantemente. A professora Carmen Luisa Barbosa Guedes é graduada, mestre e doutora em Química Orgânica pelo Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IQ-UFRJ) e falou com o "Conexão Ciência" sobre a complexidade da questão. Carmen Guedes coordenou o projeto "Gerenciamento de resíduos perigosos", encerrado em 30 de novembro de 2007 e o foco eram os laboratórios do Campus da Universidade Estadual de Londrina. O objetivo principal foi a conscientização dos alunos e professores e a implementação de um plano de gerenciamento de resíduos químicos nas instituições de ensino/pesquisa e formação de multiplicadores. Um novo projeto está em curso na Universidade e pretende dar continuidade ao anterior. Esse projeto, intitulado "Gestão de resíduos químicos", pretende trabalhar com as escolas públicas da cidade em parceria com o Núcleo Regional de Londrina.

Conexão Ciência: No que consistem os chamados "resíduos perigosos"?

Carmen Luisa Barbosa Guedes: Os resíduos perigosos são classificados por normas brasileiras com base em vários critérios, como a toxidade e outros critérios mais, que fazem mal aos seres vivos ou geram impacto ambiental. Produtos químicos, em geral, são considerados produtos perigosos, mas a palavra "perigosos" vai além de produtos químicos. Inclui também, produtos radioativos, biológicos, que também são potencialmente patogênicos e causadores de doenças. A idéia de colocar esse título, talvez o mais adequado fosse gerenciamento de resíduos químicos, foi para chamar a atenção, para despertar pelo menos a curiosidade. As pessoas não percebem que é necessário ter conhecimento e ter responsabilidade do que fazemos, do que jogamos na pia.

Conexão Ciência: As pessoas têm consciência do que o descarte inadequado desses resíduos perigosos pode causar?

Carmen Guedes: É muito difícil, nos dias de hoje, conseguirmos a conscientização. E, não é só de aluno, não é problema restrito a uma área ou faixa etária: em geral é difícil. Você pode encontrar estudantes que tenham a visão e possam avaliar o quanto o descarte adequado é importante. Alguns alunos e professores acham que acabou a aula, acabou também a sua responsabilidade. Não param para pensar um pouquinho mais distante. Você está criando um produto químico ou uma mistura, a partir de outros produtos. O que pode acontecer se eu jogar isso na pia? Quando saí da nossa vista, costumamos não nos preocupar muito mais. Eu não moro aqui, né? Essa questão é muito preocupante. Várias universidades estão com essa preocupação há mais tempo que nós, porque têm um número muito grande de resíduos, um número muito grande de laboratórios, com uma comunidade universitária muito mais ampla. Aqui, no Departamento de Química, tentamos minimizar a produção de resíduos, esse é o ponto fundamental de um gerenciamento. Há um tempo trabalhávamos com balões de soluções de um litro, atualmente optamos pela vidraria de volume menor, obtemos uma produção menor, sem influências no resultado final, entretanto, pela mão de obra, a vidraria menor ainda é mais cara. A diferença já foi maior, mas ainda existe.


Conexão Ciência: A reciclagem de solventes é possível?

Carmen Guedes: Além de minimizar, temos outra prática: reciclamos. Quando fazemos um estudo de impacto ambiental, muitas vezes temos casos reais: solo contaminado com petróleo, riacho com pesticidas, essa é a função de um dos nossos laboratórios, mas quando isso não acontece, simulamos. Se alguém desenvolve sua pesquisa simulando acidentes para estudar, já temos um plano para dar conta de todo aquele resíduo gerado. Na própria pesquisa já damos conta daquilo. O aluno, no tempo que ele dispõe, já faz isso, na maioria das vezes, e também temos estagiários para essa função. Nós temos uma unidade de reciclagem de solventes e 90% dos solventes que usamos nós reutilizamos. Os 10% restantes damos outro tipo de tratamento: colocamos para irradiar no sol, para degradar; aplicamos agentes oxidantes que irão mineralizar o contaminante presente, entre outras ações. As principais fontes de resíduos perigosos, na Universidade, são as aulas práticas e o desenvolvimento de pesquisas.

Conexão Ciência: Quais são as formas certas de descarte destes resíduos?

Carmen Guedes: Alguns, você, pode separar uma parte e reutilizar. Soluções contendo mercúrio, por exemplo, você tem que concentrar o metal, porque assim você diminui o volume. Se você usa o sal de mercúrio para fazer aula prática, você tem que tomar algumas precauções para que aquilo não escape do controle. Consultar a bibliografia, saber quais são as principais conseqüências do mercúrio. Em soluções que contenham metais pesados, o líquido deve ser evaporado de uma forma adequada, o metal deve ser concentrado e armazenado na forma sólida. Devidamente nomeado, ele pode ser utilizado em outras situações. Para tratar solvente orgânico, a primeira providência é separá-lo da água por decantação, então vai para a parte orgânica, para a destilação, para ver se eu posso aproveitar ao menos uma parte. Se for resíduo inorgânico [que não degrada] e material radioativo, você vai mandar encapsular e enterrar em um aterro industrial. Mas, resíduos com alguma fração de carbono, eu não posso enterrar, porque degradam com o tempo, tenho que levar para a incineração, porque se é orgânico, eu vou queimar. Usando os filtros, a temperatura e o fluxo de oxigênio adequado, eu vou, pelo menos, diminuir a quantidade de resíduo, porque acabar eu não vou acabar nunca. Após queimar, você tem a fuligem. A água ácida, porque você usou água, lavadores de gases para recolher os gases e não poluir a atmosfera... Você sempre está gerando resíduos, em qualquer atividade. Aqui tentamos pelo menos minimizar, neutralizar ou inertizar, antes de qualquer providência, até mesmo de armazenar. A gente simula resíduos, para pesquisar o tratamento.

Conexão Ciência: Quais os principais riscos, que o descarte inadequado pode trazer à saúde humana?

Carmen Guedes: Desde a ingestão de metais pesados dissolvidos que podem ir acumulando de uma água que foi contaminada e que não recebeu o tratamento adequado. Você pode contrair doenças devido aos distúrbios bioquímicos e uma série de alterações que você pode ter no organismo. Por exemplo, a hemoglobina tem ferro, você ingere outro metal que substitui o ferro [provoca uma reação química], você pode ter distúrbios e indiretamente vários tipos de doenças. E tem a contaminação biológica.

Conexão Ciência: Qual a diferença entre o descarte do lixo doméstico e do lixo químico?

Carmen Guedes: Hoje em dia, não há tanta diferença mais. Porque existem produtos químicos que você usa dentro de casa. Muitas vezes, temos um laboratório em potencial em nossas casas. Alguém já ensinou uma dona de casa a lidar com produto químico? Existem vários acidentes domésticos e não é só com criança. Você mistura uma coisa que tem amônia com outra que tem cloro e desprende aquele gás. Todo mundo vai ao supermercado e tem acesso aos mesmos produtos químicos que nós temos aqui, na maioria das vezes, em uma concentração mais baixa, mas está lá. O potencial está lá. E as pessoas que manipulam isso, não têm noção, não são preparadas. Quantas pastas de dente são extremamente abrasivas. Existem crianças engolindo [pasta de dente] produtos abrasivos, aí você pode ter uma gastrite, até úlcera gástrica, dependendo da quantidade. Há uma série de problemas bastante graves, que nós negligenciamos porque muitas vezes não paramor para pensar.

Conexão Ciência: O que é feito, atualmente, com os resíduos da UEL?

Carmen Guedes: Desde quando nós instalamos esse projeto, nós fizemos um levantamento sobre quais são os laboratórios que geram resíduos e tivemos alunos envolvidos nesse projeto. Fizemos isso para ter um perfil e saber a quantidade de todo o passivo armazenado. Aquele que foi juntando, juntando e juntando e que nem sabe o que é. Até para você pagar para alguém levar embora, você tem que saber o que você tem ali, ou senão, pagar muito caro, para alguém identificar, pelo menos parcialmente, o seu resíduo. Nós tivemos todo esse levantamento dos passivos da UEL e daquilo que é gerado. Atingimos parcialmente os nossos objetivos. Hoje, a UEL já contratou uma empresa e isso é feito periodicamente. Veio uma empresa aqui no laboratório de Química e levou parte do passivo, que já estava adequadamente armazenado. Temos [no laboratório de Química] um entreposto, para guardar temporariamente, quando já junta certa quantidade, acontece o recolhimento.

Crédito da imagem: Vitor Oshiro

Ano 5 - Edição 38 -18/05/2008



  Mais notícias da seção Meio Ambiente no caderno Entrevista
26/04/2008 - Meio Ambiente - Educar para preservar
Livro critica mística em torno do biodiesel e discute os desafios da educação ambiental...
05/11/2007 - Meio Ambiente - "Um olhar sobre o mundo"
A educação ambiental, observada e estudada do ponto de vista de um pesquisador que já realizou pesquisas em diversos países do mundo ...



Capa |  Agenda  |  Editorial  |  Entrevista  |  Estante  |  Expediente  |  Notas  |  Notícias  |  Reportagem  |  Reportagem Especial  |  Reportagem Especial
Busca em

  
835 Notícias


Notícias
 

Projetos

 

Projeto do Departamento de Design reúne moda, sustentabilidade e inclusão social


Notas
 

Divulgação Científica

 

Instituto do Câncer lança programa de prevenção no Twitter


Agenda
 

Agenda

 

Agenda


Editorial
 

Editorial

 

Casa Própria, Pedagogia e Anestésicos


Expediente
 

Expediente

 

Quem trabalha no Conexão Ciência