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Conexão Ciência
Desde: 15/04/2004      Publicadas: 835      Atualização: 20/11/2011

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 Entrevista

  26/04/2008
  1 comentário(s)


Educar para preservar

Livro critica mística em torno do biodiesel e discute os desafios da educação ambiental

Educar para preservar Pauta e Edição: Vitor Oshiro
Reportagem: Soraia Barros


O local conhecido como Cemitério de Automóveis, localizado na rua João Pessoa em Londrina, foi cenário da noite de autógrafos do livro " Biodiesel, o óleo filosofal : desafios para educação no caldeirão do desenvolvimento sustentável" no último dia nove. O livro é fruto do trabalho de pós " doutorado do professor de história da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Jozimar Paes de Almeida. Seu pós " doutorado foi realizado com o grupo estudos em educação ambiental Makario, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), que faz parte do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). O interesse do autor pela temática não é de agora. Jozimar Almeida analisou em seu mestrado, mediante uma perspectiva histórica, o Pró-Àlcool. Essa análise resultou no livro "A extinção do Arco- Íris" (editora Papirus) no ano de 1998. Com toda essa bagagem, que inclui o doutorado na Universidade de São Paulo (USP) sobre Relatórios de Impacto no Meio Ambiente, Jozimar Almeida traz em seu novo livro questionamentos sobre o biodiesel e a educação ambiental.

Conexão Ciência - O titulo "Biodiesel, o óleo filosofal" tem um tom irônico, não?
Jozimar Paes de Almeida - Eu adotei esse título como uma estratégia irônica, por conta da minha análise ter detectado em grande parte na imprensa, um discurso sobre o biodiesel, como se ele fosse à solução de todas as mazelas que estivéssemos passando no país. Esse discurso adotado principalmente pelo nosso presidente da república, Lula. Como também um discurso apresentado por diretores de entidades estatais, representantes dos setores de agronegócio e indústria. Então, o entendimento era que a utilização do biodiesel e a estratégia de produzi-lo e comercializá-lo seria uma saída para o problema de todas as mazelas que existem no Brasil. Eu lembrei que muitas vezes os alquimistas nos tempos antigos buscavam o segredo da Pedra Filosofal. A pedra, que ao ser tocado por outro objeto, transformaria esse objeto nos produtos que o manipulador dessa pedra tivesse a intenção de que assim ela fizesse. Então, o biodiesel seria isso. Seria, esse óleo que teria a capacidade de resolver todos os problemas. Evidentemente, não pela perspectiva da filosofia. Mas a junção do óleo filosofal como um sinônimo para pedra filosofal. E nessa circunstância o subtítulo ("Desafios para a educação ambiental no caldeirão do desenvolvimento") tem uma explicação um pouco mais plausível.

Conexão Ciência - E qual seria o desafio para educação ambiental diante da propagação do conceito de desenvolvimento sustentável nas escolas?
Jozimar Almeida - O desafio seria analisar problemas que eu entendo como sócio-ambientais. Porque as alternativas estão sendo dadas pelos seres-humanos e são eles também que estão intervindo no meio-ambiente para produzir, industrializar, comercializar, consumir e até mesmo depositar seus dejetos na sociedade. E a educação ambiental busca compreender como funciona essa correlação sociedade e meio - ambiente. O ser - humano não está desvinculado da natureza. Então, a educação ambiental tem um dos princípios que é tentar compreender esses problemas sócio-ambientais que são de várias esferas, múltiplos e se configuram como um conjunto de problemas.

Conexão Ciência - E quais seriam essas esferas?
Jozimar Almeida - Vamos assim dizer, quando se produziu a ciência, a chamada ciência moderna, a partir do século XVIII e XIX, o chamado cientista do tempo moderno, do tempo pré-moderno, ele não era um físico, um biólogo, um antropólogo, um historiador ou um sociólogo. Ele, ao analisar a sociedade, buscava integrar toda essa capacidade de informação. Então, ele não estava dividido em campos específicos do conhecimento. Acontece que a partir da modernidade foi se especificando os campos. Então nós temos os campos específicos da biologia, campos específicos da física, da economia, entre outros. E esta fragmentação fez com que cada cientista se especializasse na sua área e se aprofundasse cada vez mais nos estudos. Só que quanto mais você se especializa, menos você estabelece correlações entre esses outros campos do conhecimento. Portanto, não realiza uma análise assim vamos dizer de amplo espectro.

Conexão Ciência - Então seriam essas correlações que estariam, no caso, faltando na educação ambiental para se tratar da questão do desenvolvimento sustentável?
Jozimar Almeida - Estes são os desafios da educação ambiental. Porque não é simples estabelecer essa correlação entre os vários campos do conhecimento científico na nossa sociedade em que se exige a especialização. Mas ao mesmo tempo se exige também que as pessoas compreendam o problema dentro de uma ótica mais ampla que a sua especialidade. Como fazer isso é um dos desafios da educação ambiental. Como realizar isso e como realizar de uma forma que não apenas analise o problema, mas também dissemine, torne esse problema analisado não apenas algo que se torne propriedade do educador ambiental. Porque o objetivo do educador ambiental é também disseminar o conhecimento. Então, se senta num congresso de, por exemplo, químicos e eles trabalharão com uma linguagem específica. Um biólogo ou um historiador ia ficar alijado do processo. Não ia compreender o que eles estavam falando. Então, essa linguagem científica, muitas vezes, em vez de se transformar numa chave de abertura para se compreender o mundo, ela se torna um selo, um segredo de Césamo .

Conexão Ciência - Quando se utiliza o conceito desenvolvimento sustentável para dar uma roupagem politicamente correta às praticas desenvolvimentistas esse conceito torna-se falacioso?
Jozimar Almeida - O significado da palavra desenvolvimento e o significado da palavra progresso para a nossa sociedade atual é produzir, com maior velocidade e em maior quantidade. Ora, produzir em uma maior velocidade com uma maior quantidade utilizando-se de um maior aparato técnico possível significa destruir um ciclo biológico de sistema que existe no nosso planeta. Como é que isso poderia ser considerado como ecológico se esta representação que se efetuou do desenvolvimento e do progresso está baseada nessa matriz do chamado crescimento econômico? E crescer economicamente não discute a qualidade do crescimento. Está discutindo a quantidade, a velocidade do crescimento. Por isso, como poderia ser sustentável esse tipo de prática? Não é possível ser sustentável. É uma falácia.

Conexão Ciência - Outro discurso que se prega é que o biodiesel colaboraria com a preservação do meio-ambiente. Ele é uma falácia?
Jozimar Almeida - Também é uma falácia. E aí existe uma série de argumentos para ir comentando que seja uma falácia. A gente também não pode analisar um problema como totalmente errado ou totalmente certo. A nossa preocupação é de ponderar sobre uma determinada possibilidade de trabalhar com o biodiesel, e eu faço essa ponderação no final do meu trabalho. Eu faço as considerações de como ele poderia ser utilizado de uma forma mais adequada para poder atender a pequena agricultura, para poder atender regiões diversas e para poder ser utilizado sem ser um instrumento de contra-produtividade. Porque, no caso, motores de caminhões estão comendo aquilo que a gente tem que comer. Que é no caso soja e o óleo de milho. Pelo que eu saiba isso são alimentos. Então, motores de caminhões de 400 hps* estão realizando esse consumo.

Conexão Ciência - Como a questão do biodiesel deveria ser trabalhada?
Jozimar Almeida - Primeiro, ela tem que ser distribuída regionalmente. Ela tem que atender populações mais distantes de modo que leve a essa população energia propriamente dita. Segundo, seria fundamental, que ela fosse feita dentro da pequena propriedade, porque essa é uma questão sócio-ambiental. Outra questão: é importante que ela seja feita em diferentes formas de cultura de sementes oleaginosas. E não sobre forma de monocultura. Porque essas diferentes culturas de oleaginosas, elas vão, de certa forma, propiciar uma maior produtividade e uma maior condição de biodiversidade. Claro, que está vinculado a isto a perspectiva de não utilizar grandes equipamentos mecânicos para poder fazer o transporte de produtos. Utilizar caminhão é contra-produtividade. O melhor seria utilizar meios menores, pequenas barcaças para lugares que são mais distantes para poder gerar energia elétrica. Mas veja, mesmo assim, ele tem que ser analisado como uma forma de energia alternativa que esteja conjugado com outras fontes de produção de energia da mesma localidade.

*Hp (Horse Powers) é uma unidade de medida que mede potência. Ele significa cavalo. Um hp equivale a 446 watts de potência.

Os exemplares de "Biodiesel, o óleo filosofal: Desafios para educação ambiental no caldeirão do desenvolvimento sustentável", editora Atrioart, está à venda na livraria EDUEL.

Crédito da imagem: Soraia Barros

Ano 5 - Edição 35 - 26/abril/2008



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