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Conexão Ciência
Desde: 15/04/2004      Publicadas: 835      Atualização: 20/11/2011

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 Entrevista

  19/08/2007
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O mundo do trabalho

Pesquisadora Simone Wolff fala sobre seu livro, a realidade do trabalho nos dias de hoje e as novas tecnologias

O mundo do trabalho
Reportagem: Denise Dalla Colletta
Edição: Ludmilla Andrade


A pesquisadora doutora em ciências sociais pela Universidade Estadual de Campinas, Simone Wolff, lançou o livro* Informatização do trabalho e reificação: uma análise à luz dos Programas de Qualidade Total, no fim de 2005. E participou da produção do livro Riqueza e Miséria do Trabalho no Brasil, com a produção do artigo "O mundo virtual e reificado das telecomunicações: o caso Sercomtel". Wolf explica, em entrevista ao Conexão Ciência, algumas das principais mudanças ocorridas no processo de trabalho do capitalismo contemporâneo, conta um pouco de sua obra e sua experiência na área da sociologia do trabalho.

Conexão: Fale um pouco do seu livro "Informatização do trabalho e reificação: uma análise à luz dos Programas de Qualidade Total."

Simone Wolff:
Eu estudo os programas de qualidade total, os grandes baluartes da lógica produtiva que o Brasil começou a sentir de forma mais incisiva a partir da década de 1990, para analisar o novo patamar de exploração da força de trabalho dentro das empresas. Entendo que nos discursos dos programas é possível garimpar os aspectos ideológicos conformadores da qualificação de ser o mais generalista que lógica produtiva atual demanda dos trabalhadores dentro das empresas. Ou seja, sua flexibilidade, polivalência, uma abertura para colaborar com as empresas, com idéias e sugestões.

Conexão: Como acontece a exploração?

Simone Wolff:
O novo patamar de exploração (implícita na administração participativa) seria a transformação dessas sugestões e idéias dos trabalhadores, aqueles que estão diretamente envolvidos com a produção, em matéria prima, na medida que as novas tecnologias da informação permitem a incorporação dessas idéias nos processos e produtos das empresas via softwares.

Conexão: Apropriar-se das idéias dos trabalhadores seria uma forma de expropriação do trabalho?

Simone Wolff:
Exatamente, todo tipo de exploração capitalista sempre sugere algum tipo de expropriação. Podemos observar nos primórdios do capitalismo, nos movimentos de cercamento, em que os camponeses foram expropriados de suas terras, eles foram absorvidos pelas indústrias e tornaram-se consumidores. Depois disso, a manufatura, após a primeira Revolução Industrial, observamos uma expropriação do saber-fazer do processo total do trabalho. No Taylorismo notamos uma nova expropriação, a partir da padronização das ferramentas de trabalho do parcelamento das funções. É mais ou menos o que acontece com relação às capacidades cognitivas do trabalhador em conseqüência das novas tecnologias da informação. A informática sendo aplicada nas metodologias de qualidade total ou dos novos sistemas de gestão proporciona a conformação da exploração capitalista via expropriação dos saberes do trabalhador. Esse saber retorna de uma forma estandardizada para o trabalhador, conformando os processos de trabalho. Por isso que se consegue promover uma maior adaptação do trabalhador ao uma intensificação do trabalho e a maquinaria passa a deter o modus operandi do trabalho.


Conexão: Quais são as conseqüências para o trabalhador?

Simone Wolff:
Isso implica em duas conseqüências ao trabalhador: a primeira é o desemprego, (a substituição do trabalho humano pelo das máquinas) e a segunda é o prolongamento da jornada de trabalho (os trabalhadores que se mantiverem no processo tem que trabalhar por eles e pelos outros que estão de fora).

Conexão: Se as empresas se apropriam da capacidade criadora agora, o trabalhador pode se dizer que ele tem mais abertura para criar agora?

Simone Wolff:
Não, a capacidade criativa é inerente ao trabalho humano, ela jamais pode ser totalmente usurpada, ela sempre existiu.

Conexão: Mas antes, com o Taylorismo ou o Fordismo, o trabalhador, não tinha muita possibilidade de criar, hoje ele tem mais, dentro de certos modelos?

Simone Wolff:
Tem, essa é inclusive uma polêmica da sociologia do trabalho. E que pode dar argumentos do tipo que o trabalhador hoje está mais criativo e que as tecnologias permitiram isso. Esse tipo de visão cai num determinismo tecnológico muito grande, como se a tecnologia proporcionasse a criatividade. Pode dar a entender que estamos num patamar melhor, com menor exploração. Eu sou de uma vertente que não acredita nisso, eu acho que a capacidade criativa, intrínseca ao trabalho, humano sempre esteve presente, inclusive no Taylorismo e no Fordismo. É que não existia nenhuma força externa que demandasse esse produto da criatividade . Havia uma demanda de criatividade empírica, de manipulação. O que ocorre hoje é que os robôs dotados de inteligência artificial manipulam a matéria. Por isso passa a ser requerido ao trabalhador que alimente essas maquinas. Para que elas possam proceder inovações nos processos e produtos. No capitalismo a inovação é a chave da manutenção da criatividade. Agora é demandado uma outra dimensão da criatividade humana, não mais baseado nas funções motoras, mas relativa a sua capacidade de abstração, de pensar a produtividade, são dimensões da criatividade. Novas idéias são sempre demandadas e bem vindas para a competitividade de empresa, o pensamento humano é inesgotável. Essa criatividade, tal como em outras fases do capitalismo, é algo que pode ser indefinidamente expropriada e padronizada.

Conexão: Em que isso implica na qualificação do trabalhador?

Simone Wolff:
A qualificação passa a ser determinada pelas máquinas, o que eu chamo de reificação, ou seja, o processo de inversão que ocorre, onde as máquinas passam a determinar o modus operandi, a temporalidade de produção. O trabalho humano deixa de ser o agente ativo e passa a ser ele mesmo o próprio instrumento de trabalho, ele se adequa as máquinas.
No taylorismo isso se deu através da formação do homem-máquina, nessa fase atual, espera-se a humanização dessas maquinas. De forma que as máquinas possam comportar toda a complexidade do trabalho e o humano se torna mais simples e barato.


Conexão: Vai sobrar espaço para o homem quando as máquinas agirem como homem?

Simone Wolff:
Sempre vai, porque o trabalho humano é o único que transfere valor ao produto, a máquina tira valor, dependendo da maneira como é aplicada, ela tem custos. Ela só agrega valor na medida em que retira a força de trabalho do processo de produção. Mas se isso (a substituição do homem pela máquina) acontecer, entra em cheque a lucratividade das empresas. É a partir do capital variável da exploração do trabalho (humano) que se agrega valor, o mercado consumidor também agrega preço. Preço e valor são coisas diferentes. Se você pagar o valor, no fim não tem lucro. Essa diferença entre o que se paga (ao trabalhador) e deixa de pagar é o que define o lucro. É complicado pensar numa fábrica sem homens, quem vai consumir? A produção capitalista é a contradição em processo. As pessoas ficam buscando uma lógica, uma racionalidade. No cotidiano ela é completamente irracional por conta da competitividade. É uma lógica que demanda força e consumo, mas que vai eliminando isso. É complicado. Essa substituição completa do homem pela maquina é uma utopia capitalista que quando se realizar vai destruir o próprio capitalismo.

Conexão: Qual a relação da educação com o mercado de trabalho?

Simone Wolff:
Ela é um meio de qualificar, respalda a produção. Por isso vemos a proliferação de cursos lato sensu. Hoje, a maquinaria é flexível e proporciona mudanças, sem grandes custos. Na maquinaria eletromecânica custava muito caro para inovar. Cada nova variação requer um novo treinamento. Vemos esse reflexo na universidade, hoje é mais interessante ter uma pessoa se reciclando continuamente do que envolvida em cursos de pos graduação de grande duração. As inovações tecnológicas mais radicais são dos países centrais, os periféricos fazem inovações para incrementar a produtividade, com conhecimento rápido, bastante direcionado e com referência a uma tecnologia predeterminada.

Conexão: Isso tem reflexos na universidade?

Simone Wolff:
Isso ocorre na universidade, há ampliação de cursos e funções e pouca contratação, o aumento de horas a cumprir e diminuição do tempo de especialização, que é norteado pelo modelo de qualificação. Os tempo dos programas de mestrado e doutorado caiu muito nos últimos 15 anos, era para ser tempo de reflexão, não de qualificação.As ciências que pensam o legado de conhecimento da humanidade estão perdendo seu papel, elas estão sendo cada vez mais instrumentalizadas. Temos que estabelecer metas de produtivismo, metas de artigos, de pesquisa...

Conexão: Antes a expropriação era mais física, agora é mais subjetiva...

Simone Wolff:
A expropriação é mais subjetiva. É por isso que nós vemos esses discursos empresariais, essa proliferação de livros de auto ajuda, vira uma questão de fé, não tem nada que garanta sua estabilidade numa empresa. A ponto de professores indicarem livros de auto ajuda como livro acadêmico. Ai notamos como esse discurso empresarial é poderoso.

Conexão: Há espaço para o sindicalismo nessa lógica atual?

Simone Wolff:
Ele está em crise, a lógica é individualizante, as resistências são de forma individual, faça o melhor, colabore, se destaque.


*Simone Wolff lançou o livro Informatização do trabalho e reificação: uma análise à luz dos Programas de Qualidade Total, no fim de 2005, em uma co-edição entre a Editora da Unicamp e Eduel. E produziu o artigo O mundo virtual e reificado das telecomunicações: o caso Sercomtel, que faz parte do livro Riqueza e Miséria do Trabalho no Brasil, editado pela Boitempo em 2006.

Ano 4 - Edição 16 - 19/ago/2007


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