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Conexão Ciência
Desde: 15/04/2004      Publicadas: 835      Atualização: 20/11/2011

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 Estante

  19/11/2007
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Caminhos históricos do Bosque

O livro "Memória e Cotidiano do Bosque" tem como protagonista esta parte do quadrilátero central de Londrina estabelecido durante a colonização

Caminhos históricos do Bosque Pauta e Reportagem: Poliana Lisboa
Edição: Larissa Ayumi Sato e Vitor Oshiro


O projeto do Inventário e Proteção do Acervo Cultural (IPAC) surgiu na Universidade Estadual de Londrina em 1986 e abrange as áreas de História, Arquitetura e Ciências Sociais. O objetivo central do projeto era estudar o patrimônio da cidade e região. Como são áreas de urbanização recente, o IPAC enfrentou dificuldades para se estabelecer, entre elas o desconhecimento de método a ser utilizado e o preconceito que algumas pessoas tinham com o objeto de estudo.

Durante uma tentativa de tombamento do Bosque Marechal Cândido Rondon, situado na região central, o IPAC foi chamado. A tentativa não deu certo, mas neste ano, aos 21 anos do projeto, as pesquisadoras Ana Maria Chiarotti de Almeida, doutora em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), e Sônia Maria Sperandio Lopes Adum, doutora em história social pela USP, lançam o livro no qual relatam os estudos baseados em pesquisa histórica e entrevistas com freqüentadores do Bosque, patrimônio da cidade de Londrina.

Conexão Ciência: O que chamou atenção do IPAC para que o Bosque se tornasse um de seus objetos de estudo?
Sônia Adum:
Nesta última fase do projeto (IPAC), houve um interesse maior pela parte central da cidade, por este quadrilátero inicial do projeto da Companhia (de Terras Norte do Paraná). Porque o IPAC já tinha trabalhado com a Vila Casoni, as casas de madeira de Rolândia, e resolveu prestar atenção neste quadrilátero central da cidade, deste projeto inicial da Companhia. O primeiro projeto foi um estudo sobre o calçadão e de lá para o bosque foi decorrência natural.

Ana Maria de Almeida: Como nós fazíamos um estudo sobre o calçadão - que se transformou num artigo que eu apresentei em vários congressos -, percebemos que, na realidade, naquele pedaço que começa lá no Ouro Verde e vai até o final da Hugo Cabral, tinha vários espaços com grupos se apropriando e utilizando estes espaços de maneiras muito singulares. E pessoas, que ao mesmo tempo freqüentavam o calçadão, utilizavam também o Bosque. Nós percebemos que o Bosque também seria um lugar para trazermos à tona alguns aspectos do patrimônio, como aquele espaço estava sendo apropriado. Porque desde o início da colonização, a Companhia de Terras determinou que aquele espaço seria um local público, para ser usado pelas pessoas. Antes, a Catedral e o Bosque tinham uma continuidade e, depois, com o passar do tempo, a rua cortou e o Bosque sofreu várias intervenções, até ser cercado, e hoje está lá como se fosse uma espécie de museu.

Conciência: O que o Bosque representa para os moradores de Londrina?
Sônia Adum:
Duas coisas. Ele pode ser um espaço de lazer para os idosos - a grande parcela da população que freqüenta o bosque para jogar dama e baralho. Mas ele também é apropriado por ambulantes, que usam aquele espaço para parar, descansar ou "fazer algum troquinho", principalmente na parte de fora, porque tenho observado que para as pessoas de outros lugares da cidade, o Bosque é um local só de trânsito. Dificilmente você vê uma família indo passar uma tarde no bosque, é um espaço que a pessoa passa, eventualmente por pouco tempo. Mas, ao contrário, a população do entorno demonstrou uma relação muito próxima com o bosque, no sentido de ser o único espaço verde que resta " de relação com a natureza. E hoje tem aquela parte central, o "zerinho", que as pessoas usam para caminhar, fazer cooper.

Conciência: Qual foi a participação do Bosque na história da cidade?
Sônia Adum:
Ele é parte integrante desde o início. No projeto da Companhia já ficou definida esta região, como outras" cemitério, praças. Na esfera da cidade, primeiro é um espaço de mata virgem, é como se tivesse ficado ali um exemplar da mata virgem - mas na verdade desse tipo de vegetação, o bosque não tem mais nada praticamente. Então no começo ele foi o espaço da política, onde teve a primeira missa campal da cidade e o movimento para apoiar a posse do primeiro prefeito, Willie Davids, que não podia assumir porque acreditavam que ele era inglês. Este foi o primeiro movimento político que aconteceu no Bosque, mas também, depois de eleições, eram feitos churrascos, os políticos faziam festas ali.

Conciência: No livro vocês falam sobre a associação amigos do bosque. Como ela funcionava?
Ana Maria de Almeida:
A associação congregava pessoas do entorno para lutar pela preservação daquela área como espaço público, de lazer. Logo depois da tirada do terminal (de ônibus urbano) de lá, teve a apropriação de comerciantes " a formação da pedra" e a população se mobilizou para que haja o deslocamento da pedra. Na realidade esta associação foi uma luta pela preservação do espaço público que pudesse ser utilizado pela população. A intenção também era fazer uma intervenção no Bosque. Houve um concurso, mas o projeto não foi levado adiante por falta de recursos e mais tarde surgiu a proposta de tombamento (como patrimônio). Inclusive o IPAC foi chamado para fazer toda instrução do projeto de tombamento, que não aconteceu. Agora resolvemos retomar e registrar todo este trabalho.

Conciência: Antes o bosque era aberto, sem asfalto e cercas. O que as mudanças no espaço físico provocaram?
Sônia Adum:
Inicialmente o bosque era um exemplar da mata virgem, inclusive tinha um viveiro ali, retirado por conta desta assepsia urbana. E estas transformações vêm também por conta da sociedade se transformando em uma sociedade mais violenta. Com o bosque fechado, ficou um espaço violento - de prostituição, usuários de drogas -, porque se o bosque é aberto e iluminado as pessoas transitam nele e a violência é menos efetiva. O fato de ele estar cercado afasta as pessoas, até segrega. A cerca não garante segurança, o que garante segurança é a apropriação, o uso constante. Se os moradores da cidade se aproximam, ele tem vida, se ele é cercado, fica morto, as pessoas preferem não passar, ou passam por ali, mas não se embrenham.
Ana Maria de Almeida: Eu acho que isto é próprio do que vêm acontecendo nos centros das cidades. Com o processo de urbanização você tem uma deterioração muito grande dos centros das cidades. Em São Paulo já existe um movimento de revitalizar o centro, as praças. Normalmente os centros têm grande vigor durante o dia, porque concentra comércio, instituições financeiras, e à noite fica morto. E o Bosque fica mais morto ainda.


Conciência: O Bosque deveria ser tombado?
Sônia Adum:
Eu não acho que seja necessário tombar, o tombamento não garante nada, muitas vezes até prejudica, pois o poder público não consegue manter. Ele tem que ser fruído para que os moradores possam usufruir o espaço. É sempre a idéia de que o espaço precisa ser ocupado.
Ana Maria de Almeida: Este caderno serve de alerta para a população, mostrando o quanto ele é importante e alertar a população da importância de preservá-lo. Cobrar do poder público uma revitalização séria, e isto se faz , acima de tudo, com vontade política. Porque senão vai ser sempre um espaço degradado, mal cuidado, e isto afasta as pessoas. Dificilmente você vê uma criança brincando no parquinho. E de repente aquilo está no meio da cidade, no centro. Se o poder público olhasse, com certeza a população estaria ali ajudando, usufruindo do espaço

Serviço
Memória e Cotidiano do Bosque
Editora da UEL - Eduel
25 reais
72 páginas

Ano 4 - Edição 28 - 19/novembro/2007



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