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 Estante

  01/06/2008
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Como os campos de concentração interferem na sociedade

Professor estuda o confinamento de diversos grupos de pessoas em diversos momentos da história

Como os campos de concentração interferem na sociedadePauta e Edição: Pauline Almeida
Reportagem: Camilla Artilha


Os campos de concentração consistem em um sistema de encarceramento e aglomerado de presos políticos, prisioneiros de guerra e grupos étnicos. O uso desse centro de confinamento despontou no colonialismo europeu do século XIX em Cuba e na Índia, a partir de uma necessidade dos exércitos espanhol e inglês de sufocarem as insurreições e rebeliões pela independência nacional. Segundo o professor doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas João Carlos Zuin, a concentração da população civil no neocolonialismo tinha como objetivo conter o sucesso das operações de guerrilha, impor e generalizar o medo através de severas punições militares e fornecer mão-de-obra barata para os negócios coloniais." Lá, os nativos eram vistos pelos europeus como "sub-homens, bárbaros, oriundos de raças inferiores." Essa política de força e dominação foi amplamente desenvolvida na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, na Rússia stalinista, além de terem ocorrido experiências semelhantes em Portugal no regime salazarista; e "ainda hoje existem campos de permanência temporária na Europa", afirma Zuin

Em 1933, os primeiros campos alemães foram construídos em Dachau e Boyermoor; lá, judeus, comunistas, homossexuais e ciganos " considerados inferiores aos arianos " constituíam bases de recursos de trabalhos forçados para algumas empresas. Eram levados inicialmente para os centros de confinamento e depois deportados para os campos de extermínio (o principal deles foi Auschwitz, na Polônia), onde foram submetidos a experimentos médicos, torturas, câmaras de gás e expostos a diversas doenças. Durante o salazarismo português, em outubro de 1933, foi criado o campo de concentração de Tarrafal: a "colônia da morte" que serviu para receber os acusados por praticar crimes políticos e rebeliões. Nos gulags " símbolos de repressão da ditadura de Stálin na URSS " era realizado o trabalho compulsório por criminosos e presos políticos. O campo de Tarrafal e os gulags, ao contrário dos campos nazistas, que tinham motivação predominantemente racial com vista ao extermínio, destinavam-se apenas a silenciar e torturar opositores ao regime. "O fenômeno dos campos de concentração ainda existe e está se tornando uma regra, não mais uma exceção. Em vários países europeus existem os campos de permanência temporária e entre eles destaca-se a Itália. São espaços de exceção criados para confinar todos os indivíduos indesejáveis e sem permissão de estada. São detidos pela polícia e enviados aos campos de confinamento, sem que tenham cometido nenhum delito, sem que tenham sido julgados pela justiça e lá esperam meses para a deportação aos países de origem", afirma Zuin.

No projeto o qual coordena na Universidade Estadual de Londrina " "Sociologia e Literatura. Testemunhos do século XX: a função da narração na obra de Primo Levi e Italo Calvino", em que estuda as barbáries ocorridas no século XX, com um grande enfoque nos campos de concentração " o doutor diz que a desumanização nos atuais campos de permanência temporária segue a norma descrita por Primo Levi, prisioneiro e testemunha de Auschwitz. Em seus livros sobre o campo de concentração e extermínio, Levi ensina que no campo o processo de desumanização é total, abarcando tanto os prisioneiros como os guardas. "Sendo o campo a junção híbrida de direito e de força, a violência contida na lei que o criou se faz presente na força aplicada pelos guardas no controle e na manutenção da ordem, bem como a violência que se manifesta entre aqueles que reduzidos à vida nua " puramente biológica e não mais humana " agem também no fluxo cego dos instintos e das pulsões. Violência, sevícia, estupro e morte, são as conseqüências lógicas e naturais que ocorrem no espaço no qual o homem é transformado no não-homem e o ser de direito e reduzido ao ser de não - direito", informa o coordenador do projeto.

Os campos de concentração mais conhecidos
existiram durante os regimes totalitários, em que o Estado tentava controlar a mente dos cidadãos. As conquistas técnicas e científicas da era moderna foram largamente aplicadas no processo de dominação das pessoas, possibilitando a passagem de indivíduo para soldado da pátria. "Não somente o processo de transformação em soldado implica na mudança do sentido de ver, desejar, compreender o mundo, mas seus atos passam também ao controle do Estado", diz Zuin. A ideologia racista e xenofóbica desses Estados chegava à população por veículos comunicadores de massa e materializava-se em atos como a matança de indivíduos, estupros, torturas e genocídios " o cidadão agia conforme o que pregava o governo e ficava livre, então, de sua própria responsabilidade.

Apesar de ser um regime político cuja característica é o controle pleno da sociedade, o totalitarismo não foi aceito de forma absoluta. "A rebelião, a resistência se originava da vontade de respirar que sentia o ser humano em atmosferas políticas totalitárias. A desproporção de forças entre o Estado e seus opositores era tamanha que os resultados das rebeliões foram o confinamento na prisão e a morte", afirma Zuin. Não só intelectuais resistiram a esta forma de governo, mas também pessoas comuns; guiados pelos valores do humanismo, da liberdade e da justiça, participavam de guerrilhas, escondiam pessoas perseguidas e facilitavam a fuga delas para o exterior.

Esses regimes, assim como as chamadas sociedades democráticas do século XX " marcado pelos campos de concentração e extermínio " demonstraram uma fragilidade nos ideais de justiça, já que a política de força foi usada de forma abusiva nas sociedades dessa época.


Legenda da foto: Judeus em uma campo de concentração nazista

Créditos:www.eb23-p-francisco-soares.rcts.pt/guerra

Ano 5 - Edição 40 -01/06/2008






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