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Conexão Ciência
Desde: 15/04/2004      Publicadas: 835      Atualização: 20/11/2011

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 Estante

  01/06/2008
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Historiadora busca entender a formação da identidade de classe

Professora de Histórica da Uel explica a formação da classe operária através das experiências em Porto Alegre, no fim do século XIX, e fala da situação atual do mundo do trabalho


Historiadora busca entender a formação da identidade de classe
Pauta e Edição: Pauline Almeida
Reportagem:Felipe de Souza


Isabel Aparecida Bilhão utiliza jornais e documentos do final do século XIX para explicar como os operários de Porto Alegre adquiriram sua identidade de classe e, consequentemente, tomaram consciência de sua condição. Graduada em História pela Faculdade Porto Alegrense de Educação Ciências e Letras, mestre em História do Brasil pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, e Doutora em História do Brasil também pela PUC-RS, sempre atuou em pesquisas do mundo do trabalho e diz que os movimentos operários estão perdendo força devido à nova reconfiguração do sistema capitalista.

Conexão Ciência: O seu livro trata da formação da classe operária no Rio Grande do Sul, porém muitas pessoas não sabem exatamente o que é a classe operária. Você poderia explicar esse conceito.

Isabel Bilhão: A minha intenção com esse trabalho específico, que foi minha tese de doutorado, foi justamente tentar entender como várias identidades coletivas convivem no interior de um grupo. Não só em Porto Alegre, mas em vários lugares do Brasil, nós tivemos uma grande onda imigratória na segunda metade do século XIX: alemães, italianos, espanhóis, poloneses e um pouco mais tarde japoneses, que vieram tanto para as regiões rurais como para a cidade. Então, minha dúvida inicial era: como essas pessoas, ao chegar ao Brasil, e mais especificamente ao Rio Grande do Sul, inserem-se no mercado de trabalho e convivem com aqueles que já estavam aqui e como essa relação se concretiza. Eu queria saber como essas pessoas entram no mundo do trabalho em um momento em que as oficinas estão relativamente se constituindo, porque são em sua maioria de pequeno e médio porte. Também gostaria de saber como essas pessoas se relacionam, como as questões étnicas e nacionais entram no mundo do trabalho e como eram as questões de gênero, numa época em que as mulheres começam a entrar no mercado. Era esse meu objetivo, entender como as pessoas começam a se enxergar como operários e como essas outras identidades, religiosas, étnicas e de gênero, colaboram ou atrapalham na formação da identidade operária.

Conexão Ciência: No livro você usa o termo identidade de classe, em vez de consciência de classe. Essas expressões falam sobre conceitos diferentes?

Isabel Bilhão: Parece-me que o termo "consciência de classe" é carregado de toda uma discussão anterior que não era exatamente o foco que eu queria. Antes de haver a consciência de classe, deve haver toda uma construção identitária.

Nesse momento que eu estudo, muita gente se considera artesão, e não propriamente operário. Isso é uma transformação histórica, de como as comunidades vão deixando o trabalho artesanal de lado e se constituindo em um trabalho mais coletivo, dentro da linha de montagem. Em uma fábrica, onde está se constituindo uma linha de montagem, as pessoas não são artesãos especializados. Claro que existem técnicos especializados, mas a grande maioria vai trabalhar em uma pequena parte do produto, vai se especializar naquela pequena parte.

Como se forma a consciência de pertencer ao operariado? Minha intenção era chegar à consciência de classe. Em minha opinião, não existe como construir a consciência de classe sem passar pelo processo de formação de identidade. Se eu me vejo mais como italiano do que como operário, ao olhar para o espanhol ao meu lado não me sentirei semelhante a ele. Nossas diferenças culturais serão maiores. A construção identitária é permeada por conflitos e tensões, inclusive tensões lingüísticas, porque muitas vezes os operários não falam a mesma língua. Quando se forma a identidade de classe, eu vejo que ele é italiano, mas é operário, como eu. Ele é homem, mas é operário, como eu.


Conexão Ciência: O seu livro se foca no final do século XIX e início do século XX. Existe alguma diferença entre a classe operária dessa época e o proletariado atual?

Isabel Bilhão: Sim. A minha preocupação era com a República Velha. Uma das principais diferenças é a legislação trabalhista. A República no Brasil foi fundada dentro de uma idéia de liberalismo. Nossa primeira constituição republicana é uma cópia da constituição norte-americana. Dentro dessa idéia, existe a livre negociação, por isso não existe nenhum tipo de regulamentação do trabalho. Nesse sentido, o operariado precisa se organizar, construir uma identidade para chegar a uma consciência de classe e conseguir reivindicar. Se a gente pensar que a maioria dos operários nas grandes cidades nesse momento são estrangeiros, sem direitos políticos e civis, vivendo em uma sociedade que nega qualquer tipo de regulamentação, seja previdência social, seja legislação trabalhista dentro da empresa, nós vemos que, a partir da década de 1930, há uma grande diferença. A partir daí, a gente tem uma regulamentação das leis trabalhistas, inclusive com toda uma valorização do trabalhador nacional. Durante o Estado Novo de Vargas haverá uma legislação no sentido de obrigar os patrões a empregar mão de obra nacional. Assim surge a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Isso por si só já é uma grande diferença. A própria composição do operariado tende a mudar drasticamente, de mão de obra predominantemente estrangeira para mão de obra predominantemente nacional.

Conexão Ciência: Porque havia tanta discórdia entre os líderes, especialmente entre anarquistas e socialistas, se os objetivos eram basicamente os mesmos?

Isabel Bilhão: Temos certa ilusão de que os oprimidos se unem independentemente das suas tensões e diferenças. Existem diversos trabalhos que mostram as rivalidades entre os escravos brasileiros. Aquela idéia um tanto novelesca, daquela massa homogênea de escravos que sofre e se une para lutar e fazer quilombo, isso também existe com o operariado e suas lideranças. Como se o simples fato de querer uma vida melhor elimine as tensões e rivalidades do dia-a-dia e isso não acontece. Primeiro: o que é uma sociedade melhor? Depende de como cada tendência ideológica enxerga essa sociedade do futuro. Existem diferenças de ponto de vista. Mais que isso: para se chegar a essa sociedade melhor, qual o caminho a seguir? Existe uma série de diferenças conforme a tendência ideológica desses grupos.

Não se pode esquecer que em todos os âmbitos da vida humana existem disputas de poder, disputa pelas lideranças dos movimentos, disputas políticas e inclusive disputas de ego. Essas disputas também existem entre os oprimidos e essa foi uma das coisas que tentei mostrar: que se existe solidariedade, também existe rivalidade.

No caso da briga entre socialistas e anarquistas, os socialistas entendem que o Estado deve ser acionado para participar ao lado do operariado, estabelecendo leis, regulamentando o trabalho e fiscalizando. Também entendem que devem disputar cargos políticos, chegar ao parlamento, formarem partidos. Segundo os anarquistas, a disputa no campo político não levaria a nada, apenas à corrupção das lideranças operárias e ao entrar no jogo político-partidário, na visão dos anarquistas, as lideranças estão apenas fazendo o jogo do Estado e legitimando o próprio sistema.


Conexão Ciência: Quais são as relações de alienação da classe operária no sistema capitalista?

Isabel Bilhão: Eu não gosto muito dessa palavra "alienação" porque dá a idéia de que uns são mais conscientes e outros são mais alienados. Parece-me que todas as pessoas que estão no mundo do trabalho, vivendo do seu salário, que estão sendo exploradas, que geram a produção, elas sempre terão em maior ou menor grau a consciência de que estão sendo exploradas. O que muda é a forma das pessoas encararem a organização: essa questão de entrar ou não em um partido operário, de ingressar na escola anarquista ou na escola socialista, de se sindicalizar ou não. Na Primeira República, temos que ter em mente que não existe um sistema educacional no Brasil. Mais de 80% da população do país era analfabeta. Durante toda a Primeira República, justamente porque o voto do analfabeto era proibido, nós temos uma porcentagem muito baixa de eleitores, em torno de 5%, no ano de 1929. O esmagador número de analfabetos era um impedimento muito grande para que as pessoas chegassem a ter o direito básico da cidadania, que é o voto. Essa era uma das preocupações tanto das lideranças socialistas quanto das anarquistas. Nesse ponto eles convergem: o analfabetismo contribui para a ignorância do trabalhador, para que ele não consiga perceber, para que não consiga ler, nem trocar idéias e discutir sua situação. Só que dentro de uma jornada de trabalho de 16, 18 horas, são muito poucos os operários que se dão conta de que precisam ocupar 4 horas por dia para estudar. São várias dificuldades. A própria estrutura da sociedade ajuda a gerar a dificuldade do operariado. A excessiva jornada de trabalho, os maus-tratos, toda a situação de exploração, isso contribui para a alienação.

Conexão Ciência: Atualmente, ainda existem movimentos operários importantes, que obtém resultados?

Isabel Bilhão: Da década de 1980 para cá, a coisa complicou bastante, mudou muito. Nós temos o desmonte de grandes categorias profissionais que eram extremamente importantes, como os metalúrgicos, do ABC paulista, que trabalhava nas grandes montadoras e grandes metalúrgicas, e os bancários. A automatização industrial e um novo modelo de gerenciamento, o desmonte e automatização do sistema bancário fizeram com que o número de bancários diminuísse em mais ou menos 70%. É uma grande massa de trabalhadores que foi jogada de volta no mercado de trabalho e que não foi necessariamente reabsorvida. No caso da metalurgia, temos o novo modelo de gerenciamento capitalista, que é o toyotista**, que também gerou uma grande diminuição na mão de obra. A redução no número de empregos fez com que a situação se modificasse muito. Hoje, além de toda uma burocratização dos sindicatos, nós temos uma demanda maior por emprego e isso faz com que as lideranças sindicais tenham que pensar duas vezes antes de declarar uma greve e manter as conquistas adquiridas.

Conexão Ciência: Qual é, na sua opinião, a solução para o fim da exploração dos trabalhadores?

Isabel Bilhão: Eu não tenho resposta para essa pergunta. Nós sempre brincamos dizendo que o historiador é um profeta com o olhar voltado ao passado. Parece-me que estamos chegando a alguns pontos, alguns limites. Desde o século XVIII, temos a Declaração Universal dos Direitos do Homem e essas conquistas que estavam sendo pensadas no século XVIII não se alastraram para todos os cantos do planeta. Nós vemos que essas conquistas chegaram para alguns grupos operários, não para todos. Uma das primeiras coisas que temos que fazer, enquanto Humanidade, é garantir o fim do trabalho escravo, o fim da exploração, a erradicação do analfabetismo. Em algumas regiões do globo essas conquistas já foram alcançadas, dentro do sistema capitalista. Em outras, ouve uma mudança de regime econômico e político e essas conquistas não foram feitas, se pensarmos naquilo que ficou conhecido como "socialismo real"( o socialismo que foi aplicado em alguns países, como a ex-União Soviética). Mais do que a própria mudança de sistema econômico e político, essas conquistas, que a Humanidade colocou lá no século XVIII como necessidades básicas da vida, precisam chegar a todos, seja em que regime for. Muito do que está na legislação de nosso país e de todos os outros países não saiu do papel e não se concretizou.

Conexão Ciência: E isso pode ser alcançado dentro do sistema capitalista?

Isabel Bilhão: Em muitas sociedades, sim. Temos exemplos de países que viveram o chamado Estado de Bem-Estar Social, desde a década de 1930 até a década de 1980. Vemos na França a erradicação do analfabetismo ainda no século XIX, em pleno sistema capitalista industrial.

**Toyotismo: tem suas principais características nos "trabalhos em grupos, com várias responsabilidades e agrupados a um líder; operários responsáveis pela qualidade, possuíam autonomia para a produção sempre que identificassem problemas nos produtos, gerando a longo prazo um aumento significativo na qualidade; rede de fornecedores / grupos de fornecedores, agrupando-os por funções dos produtos, buscando uma parceria de longo prazo; flexibilidade compatibilizando as necessidades do consumidor com as mudanças tecnológicas, integração de processo, produto e engenharia industrial". ( Fonte: artigo científico de Cecília Leão Oderich e César Augustus Techemayer " ambos mestres em administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

Legenda da foto: Isabel Bilhão e seu livro "Identidade e Trabalho: uma história do operariado Porto-Alegrense"

Créditos: Felipe de Souza

Ano 5 - Edição 40 -01/06/2008



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