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Conexão Ciência
Desde: 15/04/2004      Publicadas: 835      Atualização: 20/11/2011

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 Estante

  29/03/2008
  1 comentário(s)


Londrina é pioneira na luta contra a toxoplasmose congênita

Programa que trabalha o controle e prevenção da doença é testado e validado em Londrina

Londrina é pioneira na luta contra a toxoplasmose congênitaEdição: Mario Benedito Sales
Pauta e Reportagem: Pauline Frank de Almeida


Hoje, Londrina conta com um programa instalado em todas as Unidades Básicas de Saúde para controle e prevenção da toxoplasmose congênita.
O professor Italmar Navarro é o coordenador do
projeto do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva, chamado "Aspectos Epidemiológicos, Laboratoriais e Clínicos da Toxoplasmose Congênita no município de Londrina" que deu suporte teórico e científico para que a cidade conseguisse um índice quase nulo da doença.

Italmar Navarro, doutor em Epidemiologia Experimental aplicada a Zoonoses, pela USP, conversou com o Conexão Ciência e contou como surgiu a oportunidade de trabalhar a toxoplasmose congênita e criar um programa para o seu controle.

Do mesmo projeto, a professora Regina Mitsuka Breganó, mestre em Microbiologia pela UEL, explicou os aspectos clínicos da enfermidade.

Conexão Ciência: O programa de toxoplasmose congênita surgiu de um chamado do Ministério da Saúde. Como isso aconteceu?

Doutor Italmar Navarro - Foi uma coisa meio mágica! Porque nós aqui da veterinária pesquisamos a toxoplasmose há mais de vinte anos. E tínhamos um conhecimento muito grande sobre como essa zoonose age, mas faltava contemplar uma parte: a contaminação para o homem. O Ministério da Saúde também tinha vontade de cuidar das gestantes que são o maior grupo risco da doença. A UEL tinha o conhecimento e Londrina queria um programa de prevenção. Foi nessa época que o Ministério da Saúde fez um chamado para que formássemos um comitê sobre a doença. Viajamos durante dois anos até Brasília( 2005 e 2006) e elaboramos um documento nacional, que está pronto e agora em 2008 vai para a gráfica e se tornará um manual em nível de Brasil.

Esse documento gerou uma necessidade de validar o programa e aí entrou Londrina, que se colocou a disposição para testar essa proposta. Nós testamos, no ano de 2006 e 2007, e o resultado foi fantástico. Hoje,a taxa de pessoas com toxoplasmose congênita é quase zero.


ConCiência: Como foi a implantação do programa em Londrina?

Dr. Italmar Navarro: O programa de controle de toxoplasmose nas gestantes surgiu como uma parceria entre a Secretaria de Saúde do Estado, a Secretaria Municipal de Saúde e Universidade Estadual de Londrina. Esse grupo amparado e orientado pelo Ministério da Saúde iniciou o projeto. Em Londrina já havia a ânsia de implantar essa utilidade para a gestante, mas não se sabia de que forma.

Aí entra a universidade dando o amparo científico. A veterinária junto da medicina, enfermagem e farmácia montaram um comitê de pesquisa e consultoria técnica sobre a toxoplasmose, para orientar o município em seus primeiros passos. Montamos um manual, um expediente de trabalho, uma rotina de condição de todos os casos e passamos tudo isso para as Unidades Básicas de Saúde. Os médicos, os agentes de saúde e as enfermeiras foram treinados e, agora, toda a cidade está servida do controle da toxoplasmose congênita


ConCiência:Como está o processo de implantação do programa de toxoplasmose congênita em outras cidades?

Dr. Italmar Navarro: A implantação do programa em outras cidades depende da Secretária de Saúde do Estado. Nós estamos, espontaneamente, implantando porque nos convidam. Dessa maneira o município de Cambé, Rolândia, Cascavel já usufruem da prevenção e tratamento da toxoplasmose congênita e a próxima cidade pode ser Maringá.

ConCiência: O que é a toxoplasmose?

Prof. Ms. Regina Mitsuka Breganó: É uma das principais zoonoses difundidas no mundo inteiro. A maioria das pessoas já teve contato com esse parasita, mas não apresentaram sintomatologia porque em pessoas que apresentam imunidade normal , essa é uma doença praticamente assintomática. Ela só é grave em situações especificas como em imunodeprimidos, HIV específicos, transplantados, pacientes que fazem quimioterapia ou então a toxoplasmose congênita.

Esta se dá quando a mãe adquire pela primeira vez o parasita durante a gestação e ela não tem imunidade contra isso. Portanto, ele vai atravessar a placenta e atingir o feto, podendo causar desde aborto até lesões mais graves como retardamento mental, calcificação cerebral, problemas oculares e até mesmo a cegueira.


ConCiência: Como se dá a transmissão?

Prof. Ms. Regina: A maioria das pessoas acha que a toxoplasmose é adquirida só pelo contato com o gato. Isso não é verdade! É uma dos maiores mitos em relação a esta doença. Ela é adquirida pela ingestão de carnes cruas ou mal passadas , principalmente carne de ovino ou suínos. A outra forma é através do contato de um forma do parasita que é chamada de oocisto, presente no solo, eliminado pelas fezes do gato.Este durante sua vida adquire o Toxoplasma gondi e desenvolve um ciclo intestinal que leva a liberação desses oocistos pelas fezes, que contaminam o meio ambiente. Uma água contaminada, por exemplo, se for utilizada para a irrigação de uma horta, pode contaminar as verduras. Uma outra fonte é o contato com o solo, então crianças que brincam em caixa de areia, pessoas que fazem jardinagem, mexem com solo podem se infectar.

ConCiência:Quais são os sintomas desenvolvidos pelos pacientes?

Prof. Ms. Regina: Geralmente é uma doença assintomática. Cerca de 90% das pessoas não vão apresentar sintomas. As que desenvolvem, são bem brandos como uma febre, que pode até se assemelhar a uma gripe. Algumas pessoas podem ter um inchamento de gânglios. O maior perigo da doença está na contaminação de mulheres grávidas porque elas podem adquirir durante a gestação e não perceber. Assim, essa grávida não vai fazer tratamento e o parasita vai passar para o bebê.

A toxoplasmose na gestante só é diagnosticada com métodos sorológicos,ou seja, pela pesquisa de anticorpos no sangue . O médico deve solicitar na primeira consulta do pré-natal uma sorologia para toxoplasmose. Se a gestante for positiva, se for caracterizada que ela adquiriu antes da gestação, dificilmente o bebê vai contrair a doença. Se for detectado que a grávida esta na fase aguda ( foi infectada há pouco tempo), então essa gestante tem que ser tratada. Ela vai receber um tratamento especifico, em um laboratório especifico, no caso de Londrina é o Hospital das Clínicas, aqui da Uel, o nosso hospital de referência. Quando a criança nascer, terá que ser examinada ainda na maternidade. O bebê vai ser avaliado por um infecto pediatra, por um oftalmologista , vai fazer uma bateria de exames, inclusive exames sorológicos, para detectar se ela adquiriu a infecção.

Nem todas as mães passam para o bebê, mais ou menos 50% que vão passar para o recém-nascido. Se for constatada a infecção, deve ser feito um tratamento durante o primeiro ano de vida. Se for descartada a infecção, ela interrompe o tratamento.
A gestante sem toxoplasmose tem que ser orientada com as medidas de prevenção porque ela faz parte do maior grupo de risco.


ConCiência: É comum que os médicos peçam o exame da toxoplasmose?

Prof. Ms. Regina: Isso não acontece. Nós sabemos que em muitas cidades não se faz nem a primeira sorologia. Em outros locais se faz só a primeira, mas não se repete nem no segundo, nem no terceiro trimestre.

ConCiência: Já existe uma conduta como que é seguida nas Unidades Básicas de Saúde de Londrina?

Prof. Ms. Regina: Já porque uma das maiores dificuldades do diagnóstico da toxoplasmose é que ele é sorológico, não tem evidência clínica. Portanto não tem como o médico correlacionar com a sintomatologia. A interpretação é muito complexa, depende de vários fatores, desde a técnica usada no laboratório até a idade gestacional. E os protocolos são muito variados. Antes de nós iniciarmos o processo aqui em Londrina, montamos uma equipe de especialistas e pessoal da vigilância epidemiológica da prefeitura. Pegamos vários protocolos existentes, tanto no Brasil como no exterior, adaptamos esses protocolos às nossas condições, aos nossos tipos de gestantes e às nossas disponibilidades de laboratório. Fizemos um estudo prévio e criamos um diagnóstico de conduta e tratamento que pudesse ser aplicado em Londrina.

Implantamos o projeto e ele trouxe resultados maravilhosos, porque até então não sabíamos nem a prevalência da toxoplasmose em gestantes e hoje nós sabemos. Outro dado importante é que nenhuma das gestantes que entraram no projeto e foram acompanhadas adquiriu toxoplasmose. Isso mostrou a importância das medidas de prevenção.


ConCiência: Quantas gestantes foram avaliadas durante o programa de implantação?

Prof. Ms. Regina: Nós avaliamos de maio de 2006 a julho de 2007 aproximadamente 1500 gestantes. Dessas 50% já tinham atingido a toxoplasmose antes da gestação e 50% era nosso grupo de risco.

ConCiência: Como a doença ataca o recém-nascido? Ele pode ter seqüelas?

Prof. Ms. Regina: Este é um outro fator importante da toxoplasmose porque se o neném nasce com alguma seqüela, o médico já vai diagnosticar e iniciar um tratamento. Agora nós sabemos que a maioria dos bebês nasce com infecção sub-clínica, ou seja, nasce aparentemente normal e depois de alguns meses ou mesmo depois de 20, 30 anos do nascimento vai desenvolver seqüelas, principalmente a toxoplasmose ocular (infecção na retina), que pode levar a cegueira. Quando a doença é diagnosticada logo no começo, após o nascimento ele vai fazer um tratamento até um ano de vida e isso vai diminuir as seqüelas. Mas como a maioria nasce sem sintomatologia, se não for feito um acompanhamento seqüelas podem aparecer. A pior delas é o retardo psicomotor, no qual a criança nasce aparentemente normal, mas quando necessita de movimentos motores mais refinados, por exemplo quando tem que começar a engatinhar, ela não tem essa capacidade.

Créditos da foto: Créditos: babylove75.blogspot.com/
2007/05/toxoplasmose




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