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Conexão Ciência
Desde: 15/04/2004      Publicadas: 835      Atualização: 20/11/2011

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 Estante

  19/04/2008
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Riqueza natural bem preservada

Pesquisa sobre a biodiversidade do Ribeirão Varanal, no município de Telêmaco Borba, gera livro

Riqueza natural bem preservada Pauta e Edição: Pauline Almeida
Reportagem: Georgia Pereira


Os professores da Universidade Estadual de Londrina Profª Sirlei Bennemann, doutora em Ecologia e Recursos Naturais, Profª Ana Odete Santos Vieira, doutora em Biologia Vegetal; e profº Oscar Shibatta doutor em Ecologia e Recursos Naturais foram os responsáveis pela organização do livro "A flora e a fauna do Ribeirão Varanal - Um estudo da Biodiversidade no Paraná". A obra é resultado de pesquisas e análises realizadas por eles e pelos alunos do departamento de Ciências Biológicas na microbacia localizada na Fazenda Monte Alegre no município de Telêmaco Borba. A Fazenda é uma reserva florestal da empresa produtora de papel, a Klabin.

Conexão Ciência: A parceria com a Klabin existe há 20 anos. Como se deu o início dessa parceria?Por quê?

Prof Dra Ana Odete: Ela começou com uma preocupação em recuperar a área da bacia do Rio Tibagi, cuidando dos peixes e da própria floresta, nas margens do rio que também estavam diminuindo. Nesse período o departamento de biologia tinha como proposta organizar um projeto que envolvesse diferentes áreas para trabalhar em conjunto com a Klabin. A nossa parte foi fazer um plano unindo um estudo de diferentes aspectos sobre a bacia como uma área de pesquisa dos docentes do departamento. Com isso a Klabin entrou com um financiamento inicial e vários dos laboratórios até hoje lucram com essa injeção de verba, porque tem equipamentos que são usados até hoje em outras pesquisas.

ConCiência:A região escolhida foi em função da parceria ou foram cogitadas outras áreas para análise?

Prof Dra Ana Odete: A Klabin, dentro da área da indústria tem parte do seu território destinado ao parque ecológico e ali ainda existem áreas naturais de floresta. Com isso, em diferentes situações, essas regiões foram exploradas por pesquisadores. E tudo começou com o mestrado de Biologia. Nós usamos esse espaço do parque numa disciplina de campo e procuramos um riacho que não houvesse muita interferência de esgoto. O Ribeirão Varanal, reunia essas características no trecho que passa dentro do parque e assim surgiu a idéia de um projeto que estudasse esse rio como um exemplo de conservação.

ConCiência:Como o conhecimento prévio da região determinou a metodologia de pesquisa?

Prof Dra Ana Odete: Na realidade nós passamos passou por um período inicial de conhecimento de várias áreas de Telêmaco Borba. Depois disso voltamos a visitar o município com os alunos da pós-graduação. A partir de então foram visitadas as áreas pensando nesses trabalhos da disciplina de campo. Com o reconhecimento que esse Ribeirão era um lugar considerado íntegro, com poucos danos ambientais, a professora Sirlei Bennemann elencou essa área para ser pesquisada.

ConCiência:Quais foram as dificuldades encontradas?

Prof Dra Sirlei Bennemann: Na metodologia de coleta, tivemos que inovar modos de captura dos organismos. Uma das grandes dificuldades foi o difícil acesso aos trechos amostrados. Eram distantes, e exigia cuidados pelo caminho porque tinha muitas cobras e outros animais, como aranhas, taturanas, mosquitos. O caminho também era complicado porque havia subidas e descidas íngremes, buracos escondidos que fatalmente faziam os participantes da equipe cair.

Outro aspecto relevante foi a quantidade de indivíduos coletados, exigiam muito tempo para serem separados dos materiais acompanhantes (areia, madeira e folhiço). A triagem, realizada em laboratório, também exigia um tempo grande de identificação.


ConCiência:Dos animais encontrados (peixes, crustáceos, insetos), quais se destacam? Quais são pouco comuns pra região?

Prof Dra Sirlei Bennemann: O primeiro destaque é que todas as espécies são nativas, que consiste em um bom indicador para as condições naturais do Ribeirão Varanal. Outro aspecto é que existem espécies novas, ainda não descritas pela ciência. Um terceiro destaque é que muitas espécies tanto de peixes, como as de crustáceos e insetos são espécies indicadoras da boa qualidade do ambiente. São animais sensíveis e exigentes na qualidade das águas, dependem de águas bem oxigenadas e claras para sobreviver, se ocorrer alguma alteração no ambiente, elas serão as primeiras a desaparecer do local.

ConCiência: Quais foram os procedimentos para coleta?

Prof Dra Ana Odete: Coletamos nas três áreas (nascente, foz, e curso médio do rio) de forma exaustiva, todos os tipos de plantas, mas focamos nas herbáceas e arbustivas, que são os componentes da parte mais baixa da floresta e as que mais interferem no limite água terra. Nos nossos estudos não foram incluídas espécies de árvores. O período de recolhimento das plantas foi prolongado, porque tem plantas que aparecem em diferentes períodos e precisamos do fruto ou da flor para análise. A nossa coleta é muito simples. Simplesmente pegamos amostras da planta, pedaços dela e levamos para o laboratório. O que chamamos de herborização é um processo muito antigo, que é secar aqueles pedaços da planta, desidratar. Para tirar a água da planta é algo semelhante ao que muita gente faz quando pega aquelas rosas e põe no meio de livros. Nós fazemos exatamente a mesma coisa só que num volume maior: pegamos jornal para envolver a planta, temos uma estufa de lâmpada que aumenta a evaporação da água e a planta seca. Existem plantas que foram secadas assim há mais de 300 anos e são mantidas até hoje nas coleções chamadas Herbário, por isso o nome Herborização.

Prof Dr.Oscar Shibatta: A escolha dos equipamentos de coleta era importante, para que não se carregasse peso morto e para que os organismos de interesse pudessem ser coletados. Foram adotadas várias metodologias de coleta tais como a utilização de peneiras e redes de arrasto. Após a passagem desses instrumentos nos locais escolhidos, os organismos eram separados das folhas e do sedimento, colocados em uma solução de formalina e levados ao laboratório para identificação e quantificação. Troncos submersos eram avaliados e alguns organismos eram coletados manualmente.

ConCiência:Do material encontrado, quais se destacam?

Prof Dra Ana Odete: Para Botânica, o que chamamos de exótica é a planta que não é comum naquela área. Um dos grandes trunfos do Ribeirão Varanal, pra dizer que ela é realmente uma área íntegra, é dizer que não tem nenhuma planta exótica dentro dessa amostra. Isso quer dizer que não houve nenhuma perturbação do homem. A situação da floresta é uma das áreas mais intactas que nós temos. Esse é um ponto importante na avaliação da diversidade do Ribeirão. Em termos das espécies, estudamos e comparamos com o que já existe em outros herbários. Pra um grupo de plantas coletadas não havia registros no interior do Paraná, eram citadas nos municípios do litoral que tem alta umidade por causa da Serra do Mar. Mas em Telêmaco Borba, também existe uma alta umidade pela constituição geográfica e algumas dessas espécies comuns ao litoral paranaense chegam até a região estudada o que amplia a distribuição geográfica. Essas plantas ainda não eram conhecidas em outros ambientes que não a Serra do Mar, isso foi bem interessante, para discutir a história das florestas do Paraná sob uma outra perspectiva.

Dentro dessa coleta foi encontrado um espécie de samambaia que provavelmente não era citada para o Brasil. É um material que ainda está em estudo, sendo comparado com outras coleções pra ter certeza.


ConCiência:Quais os resultado obtidos?

Prof Dra Ana Odete: Isso é bem interessante, porque temos poucos trabalhos científicos envolvendo as plantas herbáceas arbustivas. Os trabalhos de levantamento de vegetação, no Brasil, a maior parte foi feita com árvores. As pesquisas com outros tipos de plantas, cipós, epífitas ( plantas que crescem se apoiando sobre galhos e troncos das árvores), começaram mais recentemente e com as plantas herbáceas existem poucos trabalhos. Isso é um primeiro ponto importante: conseguimos apresentar uma lista detalhada de plantas herbáceas pra uma localidade do Paraná. No estado existem outros trabalhos que foram feitos na região de Curitiba, e o número de espécies encontradas é quase um terço do que temos. Apesar do nosso esforço de coleta ter sido relativamente pequeno, o número de espécies que nós identificamos é muito maior. O material encontrado é muito interessante pra essa área, que envolve tanto espécies de samambaias, com uma riqueza delas, quanto de plantas que produzem flor e fruto, as chamadas angiospermas. Entre as samambaias, nós temos espécies consideradas em extinção.

ConCiência:Qual a importância da preservação ambiental?

Prof Dra Sirlei Bennemann: Os resultados revelaram o quanto é preocupante a situação, principalmente das microbacias, pois estão sendo destruídas antes que se tenha o conhecimento da sua biodiversidade, em alguns casos podemos estar extinguindo espécies que somente existiam naquele local.

As pesquisas nestes ambientes de nascentes estão apenas iniciando no Brasil. É urgente que se faça investimento para estudos nestes ambientes e na formação de profissionais capacitados para interpretar os resultados com uma visão global do seu funcionamento.

Outro aspecto é o serviço natural que essa biodiversidade proporciona na qualidade do clima e das águas que utilizamos. Isto ainda é totalmente ignorado pela população. Existem até pesquisadores e principalmente, aqueles responsáveis pelas tomadas de decisões inadequadas que querem modificar e utilizar estes ambientes de maneira errada, extinguindo as espécies que prestam serviços gratuitamente.


Prof Dr.Oscar Shibatta: Ambientes pouco impactados são raros e constituem um testemunho da condição original de uma determinada região. A sua preservação resguarda um estoque de espécies que podem estar extintas em locais próximos e a sua preservação pode auxiliar na recomposição de áreas degradadas.

Ana Odete Santos Vieira doutora em Biologia Vegetal pela Universidade Estadual de Campinas.

Sirlei Teresinha Bennemann doutora em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal de São Carlos.

Oscar Akio Shibatta doutor em Ecologia e Recursos Naturais pela
Universidade Federal de São Carlos .

Todos são professores Associados do Departamento de Biologia Animal e Vegetal da Universidade Estadual de Londrina

Ano 5 - Edição 34- 19/abri/2008




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