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 Reportagem

  07/06/2008
  2 comentário(s)


Pesquisa estuda as lembranças da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial

Saiba mais sobre como este tema é tratado em geral e o porquê destas lembranças relativas

Pesquisa estuda as lembranças da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial
Pauta e Edição: Vitor Oshiro
Reportagem:Bruna Komarchesqui


"Você sabe de onde eu venho? É de uma Pátria que eu tenho no bojo do meu violão. (...) Por mais terras que eu percorra, não permita Deus que eu morra sem que volte para lá. Sem que leve por divisa esse 'V' que simboliza a vitória que virá. Nossa vitória final, que é a mira do meu fuzil, a ração do meu bornal, a água do meu cantil, as asas do meu ideal, a glória do meu Brasil." O trecho da Canção do Expedicionário, escrita por Guilherme de Almeida, mostra o lado heróico da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial. Heroísmo para uns, loucura para outros: passados quase 64 anos do embarque dos primeiros pracinhas brasileiros na Itália, nossa participação na Guerra ainda gera muita polêmica entre críticos e estudiosos.

Com o objetivo de entender como essa participação foi lembrada, o professor do Departamento de História da UEL Francisco César Alves Ferraz* coordenou o projeto "A Segunda Guerra Mundial e o Brasil: Memória e Historiografia". Ele explica que, ainda que pequena do ponto de vista do conjunto da guerra, a participação brasileira teve o seu significado dentro do próprio país. Apesar disso, muitas vezes, a atuação do Brasil no teatro de operações da Itália é lembrada de maneira meio caricata, principalmente, em alguns filmes e documentários.

O projeto trabalhou as maneiras como a participação brasileira é tratada em quadrinhos, nas memórias individuais - por meio da história oral - e, até mesmo, nos livros didáticos. Segundo Francisco Ferraz, são várias visões, que vão desde "tentar desvalorizar, caricaturar, ou transformar os brasileiros em heróis pátrios. Há pouca compreensão e, quando há, em geral, ou é caricaturada ou faz parte dessa luta entre a louvação extrema e a crítica até sem fundamento ou exagerada".

O professor ressalta que, até entre os veteranos da Guerra, a maneira de ver a participação brasileira é relativa. "Dependendo da hierarquia, você vê um tipo de guerra diferente. Os ufanistas, em geral, são ligados às Forças Armadas. Os que foram soldados, cabos, sargentos, aqueles que viram a guerra de perto, que olharam no branco dos olhos do inimigo, não vêem a guerra como uma coisa heróica.", explica. Para Francisco Ferraz, esses veteranos que presenciaram a ação tendem a recompor a guerra a partir das coisas boas: lembram da comida e da camaradagem, "mas na hora de falar das ações é muito difícil, porque você tem que lembrar que matou, que você viu pessoas próximas morrendo", esclarece.

Preocupada com a História, a pioneira de Londrina Amábile Massaro Cordeiro, viúva do ex-combatente Lauro Thibes Cordeiro, fez uma gravação em fita, em outubro de 1998, com o marido contando como foi sua participação na Guerra. Cordeiro morreu em 2001, mas deixou, nos quase 20 minutos de gravação, as memórias de sua vivência nos campos de batalha italianos. No relato, ele conta que foi para a Guerra de maneira voluntária, no lugar de um pai de família. Lembra que a comida era horrível, que os banhos eram muito curtos " eles chegavam a trocar 10 ou 20 cigarros por um novo banho - e que os combatentes nunca sabiam que dia era. "O padre falava 'hoje é Natal'", recorda. Cordeiro também contou a sua esposa que no fim da Guerra começou o verão. "Os italianos que estavam trabalhando na lavoura, jogavam um punhado de flor no comboio dos soldados. Era a alegria. Muitos italianos felizes. Aí a patrulha brasileira entrou para acalmar os italianos, porque eles ficaram muito contentes que a guerra tinha terminado", lembra Lauro Cordeiro na gravação.

O professor Francisco Ferraz acredita que a atuação da Força Expedicionária Brasileira é pouco lembrada no país até mesmo por uma questão numérica. Os 25 mil brasileiros que foram à Guerra são uma parcela muito pequena da população, que era de 40 milhões. "Nos Estados Unidos, cada grande ramo familiar cedeu pelo menos um rapaz. Foram 14 milhões de mobilizados e a população norte-americana, na época, era por volta de 130 milhões. Então, é mais fácil você interagir e lembrar de uma maneira favorável. No caso brasileiro, não. Passou por um esquecimento. Eram só 25 mil, é muito difícil ter algum envolvimento", conclui.

* O professor Francisco César Alves Ferraz é graduado em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo - onde pesquisou a reintegração social e a memória coletiva dos veteranos brasileiros da Segunda Guerra. Sua tese "A guerra que não acabou: a reintegração social dos veteranos da Força Expedicionária Brasileira (1945-2000)" foi defendida em 2003.

Crédito da foto: Arquivo pessoal de Amábile Massaro Cordeiro

Ano 5 - Edição 41 -07/06/2008






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